A mulher no Islam: Mito e Realidade

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21/05/2020

Há 5 anos atrás, li no Toronto Star, edição de 3.7.90, um artigo intitulado “O Islam não está sozinho nas doutrinas patriarcais”, de Gwyne Dyer. O artigo descrevia as reações furiosas das participantes de uma conferência sobre mulheres e poder, realizada em Montreal, aos comentários da famosa feminista egípcia, Dra. Nawal Saadawi.

 

Suas declarações “politicamente incorretas”, incluíam: “os elementos mais restritivos em relação às mulheres, podem ser encontrados, primeiro no Judaísmo, Velho Testamento, depois no Cristianismo e, finalmente, no Alcorão”; “todas as religiões são patriarcais porque elas provêm de sociedades patriarcais”; e “o véu das mulheres não é uma prática especificamente islâmica mas, sim, um herança cultural antiga, com analogia nas religiões irmãs”. As participantes não puderam ficar sentadas, enquanto suas crenças estavam sendo igualadas ao Islam. Assim, a Dra. Saadawi recebeu uma avalanche de críticas. “Os comentários da Dra. Saadawi eram inaceitáveis. Suas respostas revelavam uma falta de compreensão acerca da fé das outras pessoas” , declarou Bernice Dubois, do Movimento Mundial de Mães. “Eu tenho que protestar”, disse a participante Alice Shalvi, da televisão feminina de Israel, “não existe o conceito do véu no Judaísmo”. O artigo atribuía esses furiosos protestos a uma forte tendência no Ocidente de culpar o Islam por práticas que são muito mais uma parte da própria herança cultural do Ocidente.

“As feministas cristãs e judias não irão se sentar para discutir, em igualdade de condições, com as más muçulmanas”, escreveu Gwyne Dyer.

Não me surpreendeu que as participantes da conferência tivessem uma tal visão negativa do Islam, especialmente por envolver questões femininas. Acredita-se, no Ocidente, que o Islam é o símbolo da subordinação das mulheres por excelência. A fim de compreendermos como está enraizada tal crença, basta mencionar que o Ministro da Educação da França, a terra de Voltaire, recentemente ordenou a expulsão das escolas francesas, de todas as jovens muçulmanas que vestissem o Hijab! Na França é negado a uma jovem muçulmana, que usa um lenço, o direito à educação, enquanto que estudantes católicos podem usar uma cruz ou um estudante judeu pode usar o solidéu. A cena de policiais franceses, impedindo jovens muçulmanas com as cabeças cobertas de entrarem no colégio, é inesquecível. Este fato nos traz à memória outra cena igualmente triste, a do Governador George Wallace, do Alabama, em l962, em pé, defronte ao portão da escola, tentando bloquear a entrada de estudantes negros, a fim de impedir a desagregação das escolas do Alabama. A diferença entre as duas cenas é que os estudantes negros tiveram a simpatia de muitas pessoas nos EUA e no mundo inteiro. O presidente Kennedy enviou a Guarda Nacional Americana para forçar a entrada dos estudantes negros. As moças muçulmanas, por outro lado, não receberam a ajuda de ninguém. Sua causa parece ter muito pouca simpatia, tanto dentro da França como fora. A razão é a incompreensão e o medo de tudo que seja islâmico no mundo atual

O que mais me intrigou sobre a conferência de Montreal foi uma questão: As declarações feitas por Saadawi, ou qualquer de suas críticas, são verdadeiras? Em outras palavras, o Judaísmo, o Cristianismo e o Islam têm o mesmo conceito sobre as mulheres? São tais conceitos diferentes? O Judaísmo e o Cristianismo, na verdade, oferecem às mulheres um tratamento melhor do que o Islam? Qual é a verdade?

Não é tarefa fácil pesquisar e encontrar respostas para estas questões difíceis. A primeira dificuldade é que a pessoa tem que ser honesta e objetiva ou, pelo menos, fazer o máximo para o ser. Isto é o que o Islam ensina. O Alcorão instruiu os muçulmanos a dizerem a verdade, mesmo que aqueles que estejam próximos a eles não gostem disso:

“… e se falardes, sede justo, mesmo que se refira a um parente próximo” (6:152);

“Ó aqueles que creram, erijam a justiça na partilha, como testemunhas de Alá, ainda que contra vós mesmos, ou seus pais ou seus parentes, …”

A outra grande dificuldade é o fôlego irresistível do assunto. Por essa razão, durante os últimos  anos, passei muitas horas lendo a Bíblia, a Enciclopédia da Religião e a Enciclopédia Judaica, na busca de respostas. Também li muitos livros que discutem a posição das mulheres nas diferentes religiões, escritos por exegetas, apologistas e críticos. O material apresentado nos capítulos seguintes representa as descobertas importantes dessa humilde pesquisa. Eu não sou objetivo, absolutamente. Isto está além da minha limitada capacidade. Tudo que posso dizer é que tentei, através dessa pesquisa, me aproximar do ideal alcorâmico de “falar imparcialmente”.

Gostaria de enfatizar nesta introdução, que minha proposta para este estudo não é denegrir o Judaísmo ou o Cristianismo. Como muçulmanos, acreditamos nas origens divinas de ambos. Ninguém pode ser muçulmano sem acreditar em Moisés e Jesus como grandes profetas de Deus. Meu intento é somente afirmar o Islam e pagar um tributo para a última mensagem verdadeira de Deus para a raça humana. Também gostaria de enfatizar que me preocupei somente com a Doutrina, isto é, minha preocupação é, principalmente, a posição das mulheres nas três religiões, como aparece em suas fontes originais, e não como é praticada por seus milhões de seguidores no mundo  hoje. Por causa disso, a maior parte das evidências citadas vêm do Alcorão, dos ditos do Profeta Mohammad, da Bíblia, do Talmud e dos ditos de alguns dos mais influentes padres da Igreja, cujos pontos de vista contribuíram imensamente para definir e desenhar o Cristianismo. Muitas pessoas confundem cultura com religião, e outras não sabem o que seus livros religiosos dizem, e outras ainda, sequer se preocupam com disso.

1. O ERRO DE EVA?

As três religiões concordam com um fato básico: Tanto as mulheres como os homens foram criados por Deus, o Criador de todo o Universo. Contudo, a divergência começa logo após a criação do primeiro homem, Adão, e da primeira mulher, Eva. A concepção judaico-cristã da criação de Adão e Eva está narrada detalhadamente em (Gênesis, 2:4-3:24). Lá está dito que Deus proibiu o homem de comer do fruto da árvore proibida. O Senhor Deus deu ao homem uma ordem, dizendo: “Podes comer de todas as árvores do jardim. 17 Mas, da árvore do conhecimento do bem e do mal não deves comer, porque no dia em que o fizeres serás condenado a morrer”. Também deu a mesma ordem à mulher. A serpente seduziu Eva para  que o comesse. E a mulher respondeu à serpente: “Do fruto das árvores do jardim, Deus nos disse ‘não comais dele nem sequer o toqueis, do contrário morrereis.” A serpente replicou à mulher: “De modo algum morrereis 5   É que Deus sabe que no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão e sereis como deuses, conhecedores do bem e do mal”. E Eva, por sua vez, seduziu Adão para comer com ela. (Gênesis 6) A mulher notou que era tentador comer da árvore, pois era atraente aos olhos e desejável para se alcançar inteligência. Colheu o fruto, comeu-o e deu também ao marido, que estava junto. E ele comeu. E quando Deus repreendeu Adão pelo que ele havia feito, ele colocou a culpa em Eva. (Gênesis 11) Disse-lhe Deus: “E quem te disse que estavas nu? Então, comeste da árvore, de cujo fruto te proibi?”12 E o homem disse: “A mulher que me destes por companheira, foi ela que me fez provar do fruto da árvore e eu o comi”. Consequentemente, Deus disse a Eva Gênesis 16: “Multiplicarei os sofrimentos de tua gravidez. Em meio a dores darás à luz os filhos, a paixão arrastar-te-á para o marido e ele te dominará”. Para Adão Ele disse (Gênesis 17) “Porque ouviste a voz da mulher e comeste da árvore, cujo fruto te proibi comer, amaldiçoada será a terra por tua causa. Com fadiga tirarás dela o alimento durante toda a vida. 18 Produzirá para ti espinhos e abrolhos e tu comerás das ervas do campo. 19 Comerás o pão com o suor do rosto, até voltares à terra, de onde foste tirado. Pois tu és pó e ao pó hás de voltar”.

O conceito islâmico da primeira criação é encontrado em muitas passagens do Alcorão, como por exemplo:

“E dissemos ó! Adão, mora tu e tua zauj (mistura companheira) no Paraíso e comam dele prosperamente onde lhes aprouver, e não vos aproximeis desta árvore e então sereis dos injustos.” (Alcorão 2:35).

Então, Satanás sussurrou para eles, a fim de revelar a ambos o que lhes havia sido ocultado de SAUÉTIHIMÉ (suas ambas e outras igualmente presentes, invisíveis, não bons atributos) e, então, disse: “Não vos proibiu a ambos, Vosso Senhor, desta árvore senão de seres ambos convertidos em anjos ou de serem ambos dentre os imortais”. E jurou-lhes que era um conselheiro sincero. Assim, a ambos, DALLÉHUMÉ (indicou a ambos em confiança, porém, com enganos, arrancando-os e enviando-os para baixo, no que intencionou). Quando ambos provaram da árvore, divisaram ambos suas SAUÉTIHIMÉ e começaram a cobrir-se com folhas do paraíso. E seu Senhor chamou a ambos: “Eu não vos havia proibido daquela árvore e dito a ambos que Satanás é vosso inimigo declarado?” Eles disseram: “Senhor Nosso. Nós injustiçamos a nós mesmos e se Tu não nos perdoares, Te apiedares de nós, certamente estaremos dentre os perdedores.” (7:20:23).

Um exame mais cuidadoso dos dois relatos sobre a Criação, revela algumas diferenças essenciais. O Alcorão, ao contrário da Bíblia, coloca a culpa igualmente em Adão e Eva pelo erro de ambos. Não há no Alcorão a mais leve sugestão de que Eva tentou Adão, ou mesmo que ela tenha comido do fruto antes dele. Eva, no Alcorão, não é insinuante, sedutora ou vencida. Além do mais, Eva não pode ser culpada pelas dores do parto. Deus, de acordo com o Alcorão, não pune ninguém pelas faltas do outro. Ambos, Adão e Eva, cometeram um pecado e então pediram a Deus o perdão, e Ele os perdoou.

2. O LEGADO DE EVA

A imagem de Eva na Bíblia, como uma mulher sedutora, teve um impacto extremamente negativo para as mulheres através da tradição judaico-cristã. Acreditava-se que todas as mulheres haviam herdado de sua mãe, a bíblica Eva, tanto a sua culpa como a sua astúcia. Consequentemente, as mulheres não eram dignas de confiança, eram moralmente inferiores e más. Menstruação, gravidez e parto eram considerados punições justas para uma culpa eterna do amaldiçoado sexo feminino.

A fim de examinarmos como foi negativo o impacto da Eva bíblica sobre sua descendência feminina, temos que olhar para os escritos de alguns do mais importantes judeus e cristãos de todos os tempos. Comecemos pelo Velho Testamento, e olhemos para alguns excertos da chamada Literatura da Sabedoria, onde encontramos: “Eu acho a mulher um pouco pior do que a morte, porque ela é uma armadilha, cujo coração é um alçapão e cujas mãos são cadeias. O homem que agrada a Deus foge dela, mas ao pecador ela o aprisionará … enquanto eu estava procurando, e não estava encontrando, achei um homem correto entre mil, mas não encontrei uma só mulher correta entre todas elas” (Eclesiastes 7:26-28).

Em outra parte da literatura hebraica, que é encontrada na bíblia católica, nós lemos: “Nenhuma maldade está mais próxima do que a maldade de uma mulher” … “O pecado começa com a mulher e, graças a ela, todos nós devemos morrer”. (Eclesiastes 25:19,24).

Os rabinos judeus listaram nove maldições infligidas às mulheres, como resultado da Queda:

“Para a mulher Ele deu nove maldições e a morte: o peso do sangue da menstruação e o sangue da virgindade; o peso da gravidez; o peso do parto; o peso de educar crianças; sua cabeça é coberta como no luto; ela fura a orelha como uma escrava permanente, ou escrava que serve ao seu senhor; ela não deve ser tomada por testemunha; e depois de tudo — a morte”. (2)

Nos dias atuais, judeus ortodoxos, em suas preces matinais diárias, recitam “Abençoado seja Deus, Rei do universo que não nos fez mulher”. As mulheres, por outro lado, agradecem a Deus cada manhã por “me fazer de acordo com Tua vontade”. (3) Outra oração encontrada em muitos livros de preces judeus: “Louvado seja Deus que não me criou gentio. Louvado seja Deus que não me criou mulher. Louvado seja Deus que não me criou ignorante”. (4)

A Eva bíblica desempenhou um papel mais importante no Cristianismo do que no Judaísmo. Seu pecado foi a base de toda a fé cristã, porque a concepção cristã da razão da missão de Jesus Cristo na terra provém da desobediência de Eva. Ela pecou e, então, seduziu Adão para segui-la em seu propósito. Consequentemente, Deus expulsou a ambos do céu para a terra, que foi amaldiçoada por causa deles. Eles herdaram seus pecados, os quais não foram perdoados por Deus e, por isso, todos os humanos nascem em pecado. A fim de purificar os seres humanos do “pecado original”, Deus teve que sacrificar, na cruz, Jesus, que é considerado o filho de Deus. Em razão disso, Eva é culpada de seu próprio pecado, do pecado de seu marido, do pecado original de toda a humanidade e da morte do Filho de Deus. Em outras palavras, uma só mulher, agindo por conta própria, causou toda a queda da humanidade (5). O que dizer sobre suas filhas? Elas são pecadoras como Eva e devem ser tratadas como tal. Ouçam o tom severo de São Paulo no Novo Testamento: Uma mulher deve aprender em calma e total submissão. Eu não permito a uma mulher ensinar ou ter autoridade sobre um homem; ela deve ser calada. Porque Adão foi feito primeiro, e depois Eva. E Adão não foi o que perdeu, foi a mulher que perdeu e se tornou pecadora (I Timóteo 2:11-14).

São Tertuliano foi mais brando que São Paulo, quando  falava “às queridas irmãs” na fé. Ele dizia (6): “Vocês sabem que cada uma de vocês é uma Eva? A sentença de Deus sobre o sexo de vocês subsiste até agora: a culpa necessariamente subsiste também. Vocês são a porta de entrada para o Diabo: Vocês são a marca da árvore proibida: Vocês são as primeiras desertoras da divina lei: Vocês são aquelas que persuadiram o homem de que o diabo não precisava ser atacado. Vocês destruíram tão facilmente a imagem de Deus, o homem. Por causa de sua deserção, o Filho de Deus teve que morrer”.

Santo Agostinho foi fiel ao legado de seus antecessores. Ele escreveu a um amigo: “Qual é a diferença, seja uma esposa ou uma mãe, ainda assim é da Eva tentadora que devemos nos precaver em qualquer mulher. Eu não consigo ver qual o uso que uma mulher pode ter para um homem, exceto a função de dar à luz crianças”.

Séculos mais tarde, São Tomás de Aquino ainda considerava a mulher como um defeito: “Com relação à natureza individual, a mulher é defeituosa e mal feita, porque a força ativa na semente masculina tende para a produção de uma perfeita semelhança no sexo masculino; enquanto que a produção da mulher provém de um defeito na força ativa ou de alguma indisposição material, ou mesmo de algumas influências externas”.

Finalmente, o famoso reformador Martinho Lutero não conseguia ver qualquer benefício em uma mulher, a não ser trazer ao mundo tantas crianças quanto possível, apesar das conseqüências: “Se elas se cansarem ou mesmo morrerem, isto não é problema. Deixe-as morrer no parto, é para isso que estão aqui”.

Muitas vezes as mulheres foram denegridas por causa da imagem de Eva como a tentadora, graças ao relato em Gênesis. Para resumir, a concepção judaico-cristã sobre as mulheres foi envenenada pela crença na natureza pecaminosa de Eva e de sua descendência feminina.

Se agora voltarmos nossa atenção para o que o Alcorão diz sobre as mulheres, logo perceberemos que a concepção islâmica sobre elas é radicalmente diferente daquela encontrada no conceito judaico-cristão. Deixemos que o Alcorão fale por si mesmo:

“Quanto aos muçulmanos e muçulmanas, aos fiéis e às fiéis, aos devotados e às devotadas, aos verdadeiros e às verdadeiras, aos homens e mulheres que são perseverantes, aos homens e mulheres que são humildes, para os homens e mulheres que fazem a caridade, para os homens e mulheres que jejuam, aos homens e mulheres que guardam a castidade, e aos homens e mulheres que se comprometem em louvar Alá, para todos eles Alá preparou o perdão e uma grande recompensa” (33:35).

“Os crentes, homens e mulheres, são protetores uns dos outros: usufruem do que é justo e proíbem o mal, observam as preces regulares, praticam a caridade regularmente e obedecem a Alá e Seu Mensageiro. Sobre eles Alá despejará Sua Misericórdia: porque Alá é Exaltado em poder e sabedoria” (9:71)

“E seu Senhor respondeu a eles: Verdadeiramente, jamais perderei a obra de qualquer um de vós, seja homem ou mulher, porque procedeis uns do outros” (3:195)

“Quem cometer uma iniquidade será pago na mesma moeda e aquele que praticar o bem, seja homem ou mulher, e é um crente, entrará no Jardim de felicidade” (40:40).

“Quem praticar o bem, seja homem ou mulher, e for fiel, concederemos uma vida agradável e premiaremos com uma recompensa, de acordo com o melhor de suas ações” (16:97).

Está claro que a visão do Alcorão a respeito da mulher não difere da do homem. Ambos são criaturas de Deus e têm como sublime meta adorar seu Senhor, fazer boas ações e evitar o mal e por isso serão avaliados harmoniosamente. O Alcorão jamais menciona que a mulher é a porta de entrada para o mal ou que ela é uma enganadora por excelência. O Alcorão também jamais menciona que o homem é a imagem de Deus. Homens e mulheres são suas criaturas e só.

De acordo com o Alcorão, o papel da mulher na terra não está limitado somente ao parto. Dela se exige fazer boas ações, tanto quanto é exigido dos homens. O Alcorão nunca diz que jamais existiu uma mulher correta. Pelo contrário, o Alcorão instruiu a todos os crentes, homens e mulheres, a seguir o exemplo daquelas mulheres , tais como a Virgem Maria e a esposa do Faraó:

“E Deus dá, como exemplo aos fiéis, o da esposa do Faraó, que disse: Ó Senhor meu, construí, junto a ti, uma morada no Paraíso e livra-me do Faraó e de suas ações, e salva-me dos iníquos! E com Maria, filha de Imram, que conservou seu pudor e a qual  alentamos com o Nosso Espírito; e ela testemunhou a verdade das palavras de seu Senhor e de Suas revelações e era uma das devotas” (66:11/13).

3. FILHAS VERGONHOSAS?

Realmente, a diferença entre a atitude bíblica e a alcorâmica, em relação ao sexo feminino, começa logo que a mulher nasce. Por exemplo, a Bíblia estabelece que o período do ritual materno da impureza é duas vezes mais longo no caso do nascimento de uma menina  do que no de um menino (Levítico 12:2-5) . A Bíblia Católica estabelece explicitamente que: “O nascimento de uma filha é uma prejuízo” (Eclesiastes 22:3). Em contraste com essa absurda declaração, os meninos recebem especial louvor: “Um homem que educa seu filho será invejado por seu inimigo” (Eclesiastes 30:3).

Os rabinos judeus tornaram uma obrigação para os homens produzirem uma descendência, a fim de propagar a raça. Ao mesmo tempo, eles não escondiam sua preferência por meninos: “É bom para aqueles cujas crianças são meninos, mas é mau para aqueles cujas crianças são meninas”, ” no nascimento de um menino tudo é alegria … no nascimento de uma menina tudo é tristeza”, e “Quando um menino chega ao mundo, a paz chega ao mundo … Quando uma menina chega ao mundo, nada chega”. (7)

Uma filha é considerada um peso doloroso, uma fonte potencial de vergonha para seu pai: “Sua filha é teimosa? Mantenha um olhar firme para que ela não faça de você um motivo de gargalhada para seus inimigos, de falatório na cidade, objeto de fofocas e coloque você em situação de vergonha pública” (Eclesiastes 42:11). Mantenha uma filha teimosa sob firme controle ou ela abusará de qualquer indulgência que receba. Mantenha vigilância sobre seu olho sem-vergonha, não se surpreenda se ela o desgraçar” (Eclesiastes 26:10-11). Foi esta mesma idéia de tratar as filhas como fonte de vergonha, que levou os árabes pagãos , antes do advento do Islam, a praticar o infanticídio feminino. O Alcorão condena vigorosamente esta prática hedionda:

“Quando a algum deles é anunciado o nascimento de uma filha o seu semblante se entristece e fica angustiado. Oculta-se do seu povo, pela má notícia que lhe foi anunciada: deixá-la-á viver, envergonhado, ou a enterrará viva? Que péssimo é o que julgam.” (16:58/59).

Deve ser dito que, este crime sinistro, jamais teria parado na Arábia, não fora a força dos termos que o Alcorão usou para condenar tal prática (l6:59, 43:17, 8l:8/9).

Além disso, o Alcorão não faz distinção entre meninos e meninas. Em contraste com a Bíblia, o Alcorão considera o nascimento de uma mulher como um presente e uma bênção de Deus, da mesma forma que o nascimento de um menino.O Alcorão sempre menciona o presente do nascimento feminino primeiro:

“A Alá pertence o domínio dos céus e da terra. Ele cria o que lhe apraz. Concede filhas a quem quer e filhos a quem lhe apraz” (42:49).

A fim de apagar qualquer traço do infanticídio feminino na nascente sociedade muçulmana, o Profeta Mohammad prometeu àqueles que fossem abençoados com filhas uma grande recompensa, se eles as tratassem gentilmente: “Aquele que se ocupa da educação das filhas e as trata benevolentemente, estará protegido contra o Inferno” (Bukhari e Muslim). “Aquele que mantém duas meninas, até que elas atinjam a maturidade, ele e eu chegaremos no dia da ressurreição desse modo: e ele juntou seus dedos” (Muslim).

4. A EDUCAÇÃO FEMININA?

A diferença entre os conceitos bíblicos e os alcorânicos sobre a mulher não está limitada apenas ao seu nascimento, ela vai muito mais longe. Comparemos suas atitudes em relação à mulher, tentando aprender sua religião. O coração do judaísmo é a Tora, a lei. Contudo, de acordo com o Talmud, “as mulheres estão isentas de estudarem a Tora”. Alguns rabinos declaram firmemente “é preferível que as palavras da Tora sejam destruídas pelo fogo a serem partilhadas com uma mulher”, e “aquele que ensina a sua filha a Tora é como se ele lhe ensinasse obscenidade” (8).

A atitude de São Paulo no Novo Testamento não é mais inteligente: “Como em todas as congregações de santos, as mulheres devem permanecer caladas nas igrejas. Não é permitido a elas falar, e devem ser submissas, como a lei diz. Se elas quiserem perguntar sobre alguma coisa, devem perguntar aos seus maridos em casa; porque é vergonhoso para uma mulher falar nas igrejas”. (I Coríntios 14:34/35)

Como pode a mulher se instruir se não lhe é permito falar? Como pode uma mulher crescer intelectualmente se ela é obrigada a um estado de completa submissão? Como pode ela delinear seus horizontes, se sua única fonte de informação é seu marido em casa?

Agora, para ser gentil, devemos perguntar: A posição alcorânica é diferente? Uma pequena estória narrada no Alcorão resume sua posição concisamente. Khawlah era uma muçulmana, cujo marido Aws declarou, em um momento de raiva: “Para mim você é como as costas de minha mãe”. Isto era tomado como uma declaração de divórcio pelos árabes pagãos e liberava o marido de qualquer responsabilidade conjugal, mas não deixava a esposa livre para deixar a casa do marido ou para se casar de novo. Tendo ouvido estas palavras de seu marido, Khawlah estava  numa triste situação. Ela foi direto ao Profeta do Islam para apelar para o seu caso. O Profeta era de opinião que ela deveria ser paciente, desde que parecesse que não havia outro caminho. Khawlah continuou questionando o Profeta, na esperança de salvar o seu casamento. Rapidamente, o Alcorão interveio e o apelo de Khawlah foi aceito. O veredicto divino aboliu este costume iníquo. Um capítulo inteiro (Capítulo 58) do Alcorão, intitulado A Discussão, ou “A mulher que questionou”, foi nomeado após este incidente:

“Alá ouviu e aceitou a declaração da mulher que apela a você (o Profeta) acerca de seu marido e leva sua queixa à Alá e Alá ouve os argumentos entre vocès, porque Alá ouve e vê todas as coisas …” (58:1)

A mulher na concepção alcorânica, tem o direito de argumentar, mesmo com o Profeta do Islam. Ninguém tem o direito de instruí-la a ficar calada. Ela não é obrigada a considerar seu marido como a única referência em matéria de lei e religião.

5. A MULHER SUJA E IMPURA

As leis e regulamentos judaicos, referentes à mulher menstruada, são extremamente restritivos. O Velho Testamento considera qualquer mulher menstruada impura e suja. Além disso, sua impureza “infecta” outras pessoas também. Qualquer um ou qualquer coisa tocada por ela torna-se sujo por um dia: “Quando uma mulher tem seu fluxo regular de sangue, a impureza de seu período mensal durará por sete dias e qualquer um que a toque estará sujo até a noite. Qualquer lugar onde ela se deite, durante o seu período, ficará sujo e qualquer lugar onde ela se sente ficará sujo. Qualquer um que toque sua cama precisa lavar suas roupas e banhar-se com água e ele ficará sujo até a noite. Qualquer um que toque qualquer lugar onde ela se senta deve lavar suas roupas e banhar-se com água e ele estará sujo até a noite. Se for a cama ou qualquer coisa que ela estava sentada, que alguém tocou, ele ficará sujo até a noite” (Levítico 15:19/23).

Devido à sua natureza “contaminadora”, uma mulher menstruada era “banida” algumas vezes, a fim de evitar qualquer possibilidade de contato com ela. Ela era mandada para um lugar especial, chamado “a casa das impuras”, por todo o período de sua impureza (9). O Talmud considera a mulher menstruada como “fatal”, mesmo que não haja qualquer contato físico: “Nossos rabinos ensinaram: … se uma mulher menstruada passar entre 2 (homens), se ela estiver no início de suas regras, ela matará um deles e se estiver no final de suas regras ela causará briga entre eles” (bPes. 111a.)

Além disso, o marido de uma mulher menstruada era proibido de entrar na sinagoga, se ela o tivesse feito ficar impuro, mesmo que pela poeira de seus pés. Um pastor, cuja esposa, filha ou mãe estivessem menstruadas, não podia recitar as bênçãos na sinagoga (10) . Não espanta que muitas mulheres judias se refiram à menstruação como “a maldição”.

O Islam não considera a mulher menstruada como possuída por qualquer espécie de “sujeira contagiosa”. Ela não é nem “intocável” nem “amaldiçoada”. Ela pratica sua vida normal, apenas com algumas restrições. Um casal não pode ter relações sexuais durante o período menstrual. Qualquer outro contato físico entre eles é permitido. Uma mulher menstruada está isenta de alguns rituais, tais como as preces diárias e o jejum durante o seu período.

6. DAR O TESTEMUNHO

Outra questão, na qual o Alcorão e a Bíblia discordam, é a que se refere ao testemunho da mulher. Na verdade, o Alcorão instruiu os crentes a fazerem transações financeiras com o testemunho de 2 homens ou 1 homem e 2 mulheres (2:282). Contudo, é também verdade que o Alcorão, em outras situações, aceita o testemunho da mulher tão igual quanto ao do homem. Realmente, o testemunho da mulher pode mesmo invalidar o do homem. Se um homem acusa sua esposa de falta de castidade, exige-se dele um juramento solene pelo Alcorão, por 5 vezes, como evidência da culpa de sua esposa. Se a esposa nega e jura igualmente 5 vezes, ela não é considerada culpada e em qualquer dos casos o casamento é dissolvido (24:6/11).

Por outro lado, as primeiras sociedades judaicas (12) não permitiam o testemunho feminino . Os rabinos contavam entre as 9 maldições infligidas às mulheres por causa da queda, a de não ser capaz de prestar testemunho (ver a seção “Legado de Eva”). Hoje, em Israel, as mulheres não podem apresentar provas em cortes rabínicas (13). Os rabinos justificam o fato de as mulheres não poderem prestar testemunho, citando o Gênesis 18:9/16, onde está estabelecido que Sara, esposa de Abraão, havia mentido. Por causa desse incidente, os rabinos desqualificaram o testemunho feminino. Deve-se notar que esta estória narrada em Gênesis 18:9/16 foi mencionada mais de uma vez no Alcorão, sem qualquer sugestão de que Sara houvesse mentido (11:69/74, 5l:24/30). No ocidente cristão, as leis civis e eclesiásticas proibiam as mulheres de dar testemunho até o final do século passado (14).

Se um homem acusa sua mulher de infidelidade, seu testemunho, segundo a Bíblia, não será considerado de maneira nenhuma. A esposa acusada tinha que ser submetida a um julgamento penoso. Neste julgamento, a esposa enfrentava um ritual complexo e humilhante, no qual se supunha provar sua culpa ou inocência (Números 5:11/31). Se ela fosse culpada ela seria sentenciada à morte. Se ela fosse inocente, seu marido seria inocentado de qualquer injustiça. Além disso, se um homem toma uma mulher como esposa e, então, ele a acusa de não ser virgem, o testemunho dela não será levado em conta. Seus pais tinham que trazer provas de sua virgindade ante os mais velhos da cidade. Se os pais não pudessem provar a inocência de sua filha, ela seria apedrejada até a morte na soleira da casa de seus pais. Se os pais não fossem capazes de provar sua inocência, o marido seria obrigado a pagar uma multa e não poderia se divorciar da esposa enquanto ele vivesse: “Se um homem toma uma esposa e, após deitar com ela, se desagrada dela e a difama chamando-a por nomes feios, dizendo, “Eu me casei com esta mulher, mas quando eu me aproximei dela eu não encontrei provas de sua virgindade”, então os pais da moça deverão trazer para os mais velhos da cidade a prova de que ela era virgem. O pai da moça dirá aos mais velhos, “Eu dei minha filha em casamento a este homem, mas ele se antipatizou com ela. Agora, ele está difamando-a e diz “eu não encontrei a sua filha virgem”. Mas, aqui está a prova da virgindade da minha filha”. Então, seus pais exibirão a roupa perante os anciãos da cidade e eles punirão o homem. Eles o multarão em 100 moedas de prata e as darão ao pai da moça, porque esse homem deu um nome mau para uma virgem israelita. Ela continuará a ser sua esposa e ele não poderá se divorciar dela enquanto viver. Se, contudo, a acusação for verdadeira e nenhuma prova da virgindade da moça puder ser encontrada, ela será trazida à porta da casa de seu pai e lá, os homens da cidade a apedrejarão até a morte. Ela fez uma coisa vergonhosa para Israel, sendo promíscua enquanto estava na casa de seu pai. O mal deve ser expurgado de entre vocês.” (Deuteronômio 22:13/21)

7. O ADULTÉRIO

O adultério e a fornicação são considerados pecados em todas as religiões. A Bíblia decreta a sentença de morte para ambos os adúlteros (Levítico 20:10). O Islam, igualmente, pune tanto o adúltero como a adúltera (24:2). Contudo, a definição alcorânica é muito diferente da definição bíblica. O adultério, de acordo com o Alcorão, é o envolvimento de um homem casado ou uma mulher casada em um caso extraconjugal. A Bíblia somente considera adultério o caso extraconjugal de uma mulher casada. (Levítico 20:10, Deuteronômio 22:22. Provérbios 6:20/7:27).

“Se um homem é encontrado dormindo com a esposa de outro homem, ambos devem morrer. Deve-se expurgar o mal de Israel” (Deuteronômio 22:22).

“Se um homem comete adultério com a esposa de outro homem, ambos, adúltero e adúltera devem ser colocados para morrer” (Levítico 20:10).

De acordo com a definição bíblica, se um homem casado dorme com uma mulher solteira, isto não é considerado crime de forma nenhuma.

O homem casado, que tem relações extraconjugais com mulheres solteiras, não é um adúltero e as mulheres solteiras envolvidas com ele não são consideradas adúlteras. O crime de adultério é cometido somente quando um homem, seja casado ou solteiro, dorme com uma mulher casada. Neste caso, o homem é considerado adúltero, mesmo que ele não seja casado, e a mulher é considerada adúltera. Em resumo, o adultério é qualquer ato sexual ilícito envolvendo mulher casada. O caso extraconjugal de um homem casado não é, de per si, um crime na Bíblia. Por que este padrão moral duplo? De acordo com a Enciclopédia Judia, a esposa era considerada como posse de seu marido e o adultério constituía a violação do exclusivo direito do marido sobre ela; a esposa, como posse do marido, não tinha direito sobre ele (15). Quer dizer, se um homem tinha uma relação sexual com uma mulher casada, ele estaria violando a propriedade de outro homem e, assim, deveria ser punido.

Nos dias atuais em Israel, se um homem casado se entrega a um caso extraconjugal com um mulher solteira, seus filhos com esta mulher são considerados legítimos. Mas, se uma mulher casada tem um caso com outro homem, seja casado ou solteiro, seus filhos com este homem são considerados ilegítimos e bastardos e são proibidos de casar com qualquer outro judeu, exceto com os convertidos e com outros bastardos. Este impedimento cessa após a 10a. geração, quando se presume que a mancha do adultério enfraqueceu-se (16).

O Alcorão, por outro lado, nunca considera uma mulher como posse de qualquer homem. O Alcorão eloqüentemente descreve a relação entre os esposos dizendo:

“E entre os Seus sinais está que Ele criou para vós companheiros de entre vós mesmos, os quais vós podeis habitar em tranqüilidade com eles e Ele colocou amor e misericórdia em vossos corações: verdadeiramente, nisto há sinais para aqueles que refletem” (30:21).

Este é o conceito alcorâmico de casamento: amor, misericórdia e tranqüilidade, não posse e padrões duplos.

8. JURAMENTOS

De acordo com a Bíblia, um homem deve cumprir quaisquer juramentos que ele faça a Deus. Ele não pode quebrar a sua palavra. Por outro lado, o juramento de uma mulher não cria necessariamente uma obrigação para ela. Deve ser aprovado pelo seu pai, se ela está morando em sua casa, ou por seu marido, se ela for casada. Se um pai/marido não endossa os juramentos de sua filha/esposa, todas as garantias feitas por ela tornam-se nulas e inócuas: “Mas, se seu pai a proíbe quando ele a ouve fazer o juramento, nenhum de seus juramentos ou garantias pelas quais ela se obrigava, permanecerão … Seu marido pode confirmar ou anular qualquer juramento que ela faça ou qualquer garantia prometida para negar-lhe” (Números 30:2/15).

Por que a palavra de uma mulher não a sujeita de per si? A resposta é simples: porque ela é propriedade de seu pai, antes do casamento, ou de seu marido após o casamento. O controle paterno sobre sua filha era absoluto até o ponto em que, se ele o desejasse, poderia vendê-la! Está indicado nos escritos dos rabinos que: “O homem pode vender sua filha, mas a mulher não pode vender sua filha; o homem pode contratar casamento para a sua filha, mas a mulher não pode fazê-lo para sua filha”. (17). A literatura rabínica também indica que o casamento representa a transferência de controle do pai para o marido: “o noivado, fazendo da mulher a posse sacrossanta – a propriedade inviolável — do marido …”; Obviamente, se a mulher é considerada propriedade de alguém, ela não pode dar qualquer garantia que seu dono não aprove.

É de interesse notar que esta instrução bíblica, relativa aos juramentos das mulheres, teve repercussões negativas sobre as mulheres judias e cristãs até o início deste século. Uma mulher casada, no mundo ocidental, não tinha status legal. Nenhum ato seu tinha qualquer valor legal. Seu marido podia repudiar qualquer contrato, comércio ou negócio feito por ela. As mulheres no ocidente (as maiores herdeiras do legado judaico-cristão) eram tidas como incapazes de cumprir contratos porque elas eram praticamente a posse de alguém. As mulheres ocidentais sofreram por quase 2 mil anos por causa da postura bíblica em relação à posição da mulher, vis-a-vis seus pais e maridos (18).

No Islam, o juramento de cada muçulmano, homem ou mulher, o/a sujeita. Ninguém tem o poder de repudiar as garantias de quem quer que seja. Falhar na manutenção de um juramento solene, feito por um homem ou uma mulher, tem que ser expiado conforme indicado no Alcorão: “Ele (Deus) vos chamará pelos vossos juramentos deliberados: como expiação, alimentai dez pessoas indigentes, da maneira como alimentais vossa família,. ou vesti-os, ou libertai um escravo. Se isso estiver além de vossas posses, jejuai por 3 dias. Esta é a expiação para os vossos perjúrios. Mantenham, pois, vossos juramentos” (5:89).

Os companheiros do Profeta Mohammad, homens e mulheres, costumavam apresentar seus juramentos de submissão a ele pessoalmente. As mulheres, tanto quanto os homens,vinham livremente até ele e prestavam seus juramentos: “Ó Profeta, quando as mulheres crentes vierem a ti para fazer um acordo contigo de que elas não atribuirão parceiros a Deus, nem roubarão, ou fornicarão, ou matarão seus próprios filhos, não matarão ninguém, nem desobedecerão a ti em qualquer assunto, então tome este compromisso com elas e peça a Deus o perdão para os pecados delas. Na verdade, Deus é Perdoador e o mais Misericordioso (60:12).

Um homem não pode fazer um juramento por conta de sua filha ou esposa. Nem pode um homem repudiar o juramento feito por quaisquer de suas parentes femininas.

9. PROPRIEDADE DA ESPOSA?

As três religiões dividem uma fé inabalável na importância do casamento e da vida familiar. Elas também concordam na liderança do marido sobre a família. No entanto, diferenças gritantes existem entre as três religiões, com relação aos limites dessa liderança. A tradição judaico-cristã, diferente do Islam, virtualmente estende a liderança do marido até o direito de posse de sua esposa.

A tradição judaica, com referência ao papel do marido em relação a sua esposa, origina-se do conceito de que ele a possui como sua escrava (19). Este conceito foi a razão que norteou o padrão duplo nas leis do adultério e na capacidade de o marido anular os juramentos de sua esposa. Este conceito foi também o responsável para se negar à esposa qualquer controle sobre sua propriedade ou ganhos. Assim que a mulher judia se casava, ela perdia completamente qualquer controle sobre sua propriedade e ganhos para o seu marido. Os rabinos judeus afirmavam que o direito do marido sobre a propriedade de sua esposa era um corolário de sua posse sobre ela: “Desde que alguém entre na posse da mulher não deveria entrar na posse de sua propriedade também?” , e “Desde que ele tenha adquirido a mulher, não deve ele adquirir sua propriedade também?” (20). Assim, o casamento determinava que a mulher mais rica ficasse praticamente sem um tostão. O Talmud descreve a situação financeira da esposa como se segue:

“Como pode uma mulher ter alguma coisa; o que quer que seja dela, pertence ao seu marido? O que é dele é dele e o que é dela é também dele … Seus ganhos, e o que ela possa encontrar nas ruas, também são dele. Os artigos domésticos, mesmo as migalhas de pão sobre a mesa, são dele. Ter um convidado em sua casa e alimentá-lo é roubar de seu marido …” (San. 71a, Git. 62a.).

A questão é que a propriedade da mulher judia significava atrair pretendentes. A família judia fixava para sua filha uma quota representativa do estado de seu pai, a ser usada como dote em caso de casamento. Era este dote que tornava as filhas judias um peso inoportuno para seus pais. O pai tinha que educar sua filha por anos e então prepará-la para o casamento, providenciando um grande dote. Assim, a moça na família judia era uma obrigação e não um direito (21). Esta responsabilidade explica por que o nascimento de uma filha não era celebrado com alegria nas antigas sociedades judias (ver a seção “Filhas Vergonhosas?”. O dote era o presente de casamento apresentado ao noivo sob os termos de contrato. O marido agia como o proprietário do dote mas não podia vendê-lo. A noiva perdia qualquer controle sobre o dote no momento do casamento. Além disso, esperava-se dela trabalhar após o casamento e todos os seus ganhos tinham que ir par seu marido, como paga por sua manutenção, a qual era obrigação dele. Ela poderia ter de volta sua propriedade somente em duas situações: divórcio ou a morte do marido. Se ela morresse primeiro, ele herdaria sua propriedade. No caso da morte do marido, a esposa poderia retomar sua propriedade de antes do casamento, mas  não se habilitava a herdar qualquer cota de propriedade do marido falecido. Deve-se acrescentar que o noivo também tinha que apresentar seu presente de casamento à noiva, contudo, de novo, ele era praticamente o proprietário deste presente enquanto eles permanecessem casados. (22).

O cristianismo, até recentemente, seguiu a mesma tradição judaica. No império cristão romano (após Constantino), tanto as autoridades civis como as religiosas, exigiam um acordo sobre a propriedade, como condição para o reconhecimento do casamento. As famílias ofereciam às suas filhas aumento dos dotes e, como resultado, os homens tendiam a se casar mais cedo, enquanto que as famílias retardavam o casamento delas até o máximo. (23). Pela lei canônica, uma esposa se habilitava à restituição de seu dote se o casamento fosse anulado, a menos que ela fosse culpada de adultério. Neste caso, ela perdia seu direito ao dote, o qual permanecia nas mãos do marido (24). Pelas leis canônica e civil, uma mulher casada, na Europa cristã e na América, até o final do séc. XIX e início do séc. XX, perdia os direitos a sua propriedade. Os direitos da mulher inglesa, por exemplo, foram compilados e publicados em l632. Estes “direitos” incluíam: “Aquilo que o marido possui é seu. Aquilo que a esposa tem é do marido” (25)

A esposa não somente perdia sua propriedade após o casamento, como perdia sua personalidade também. Nenhum ato jurídico dela tinha valor legal. Seu marido podia repudiar qualquer compra ou presente feito por ela como sendo nulo de qualquer valor legal. A pessoa com quem ela tivesse contratado era tomado como um criminoso por ter participado de uma fraude. Além disso, ela não podia processar, sequer seu marido, nem ser processada (26). Uma mulher casada era praticamente tratada como uma criança aos olhos da lei. A esposa simplesmente pertencia a seu marido e, por isso, ela perdia sua propriedade, sua personalidade jurídica e seu nome de família (27)

O Islam, desde o séc. VII d.C, garantiu às mulheres casadas personalidade independente, conquista essa que as mulheres ocidentais se viram privadas até muito recentemente. No Islam, a noiva e sua família não têm obrigação de presentear o noivo. A moça, numa família muçulmana, não é responsável. Uma mulher é tão dignificada no Islam que ela não precisa presentear ninguém, a fim de atrair maridos em potencial. É o noivo que precisa presentear a noiva com um presente de casamento. Este presente é considerado sua propriedade e, nem o noivo nem a família da noiva têm qualquer direito ou controle sobre tal presente. Em algumas sociedades muçulmanas de hoje, um presente de casamento no valor de US$100.000,00 não é incomum. A noiva fica com o seu presente de casamento, mesmo que mais tarde ela se divorcie. Não é permitida a participação do marido na propriedade de sua esposa, a não ser que ela a ofereça a ele por sua livre e espontânea vontade (29). O Alcorão estabelece sua posição a esse respeito muito claramente:

“E concedei os dotes que pertencem às mulheres; mas se elas, de boa vontade, conceder-vos uma parte, aceitai-o e desfrutai-o com bom proveito” (4:4).

A propriedade e os ganhos da esposa estão sob seu completo controle e para seu uso somente, uma vez que a sua manutenção e a das crianças é responsabilidade do marido (30). Não importa quão rica seja a esposa, ela não é obrigada a agir como co-provedora para a família, a menos que, voluntariamente, escolha fazê-lo. O casal herda entre si. Além disso, uma mulher casada no Islam conserva sua personalidade legal independente e o nome se sua família (3l). Um juiz americano, certa vez, comentando sobre os direitos das mulheres muçulmanas, disse: “Uma muçulmana pode se casar 10 vezes, mas sua individualidade não é absorvida pela de seus vários maridos. Ela é um planeta solar, com um nome e uma personalidade jurídica própria” (32).

10. DIVÓRCIO

As três religiões têm diferenças importantes em suas posições em relação ao divórcio. O cristianismo abomina o divórcio complemente. O Novo Testamento, inequivocamente, advoga a indissolubilidade do casamento. Atribui-se a Jesus o ter dito, “mas eu digo a vocês que qualquer que se divorcie de sua esposa, exceto pôr infidelidade, transforma a mulher em adúltera, e qualquer um que se case com uma mulher divorciada comete adultério” (Mateus, 5:32). Este ideal intransigente é, sem dúvida, irreal. Ele pressupõe um estado de perfeição moral que as sociedades humanas jamais alcançaram. Quando um casal percebe que sua vida conjugal não tem mais jeito, negar o divórcio em nada irá ajudá-lo. Forçar casais, que não se dão bem, a viverem juntos contra suas vontades não produz qualquer efeito, além de não ser razoável. Não espanta que o mundo cristão tenha sido obrigado a sancionar o divórcio.

O judaísmo, por outro lado, permite o divórcio, mesmo sem qualquer razão ou causa. O Velho Testamento dá ao marido o direito de se divorciar de sua esposa, mesmo que ele apenas se antipatize por ela: “Se um homem se casa com uma mulher que venha a se tornar desagradável a ele, porque ele descobre alguma coisa indecente sobre ela, ele assina o certificado de divórcio e o dá para a esposa e a manda embora de sua casa. E se, depois que ela deixar a sua casa, e se tornar a esposa de um outro homem, e esse segundo marido não a quiser mais, se ele emitir o certificado de divórcio, e a mandar embora de sua casa, ou se ele morrer, aquele primeiro marido, que havia se divorciado dela, não pode mais se casar com ela” (Deuteronômio 24:1/4).

Os versos acima, causaram alguns debates consideráveis entre os exegetas judeus, por causa da discordância com o significado das palavras “desagradar”, “indecência” e “antipatizar”, mencionadas neles. O Talmud registra suas diferentes opiniões: “A escola de Shamai entendeu que um homem não deve se divorciar de sua esposa, a menos que ela seja culpada de alguma má conduta sexual, enquanto que a escola de Hillel diz que ele pode se divorciar, mesmo que ela simplesmente tenha quebrado um prato. O Rabino Akiba diz que o homem pode se divorciar dela simplesmente porque ele encontrou uma mulher mais bonita do que sua esposa” (Gittin 90 a-b).

O Novo Testamento segue a opinião dos Shamaitas, enquanto que a lei judaica tem seguido a opinião dos Hillelitas e a do Rabino Akiba (33).

Desde que o ponto de vista dos Hillelitas tem prevalecido, a tradição da lei judaica, de permitir o divórcio sem uma causa forte, foi quebrada. O Velho Testamento não só dá ao marido o direito ao divórcio de uma esposa “desagradável”, como considera o divórcio de uma “esposa má” uma obrigação: “Uma esposa má traz humilhação, olhar abatido e coração ofendido. Mãos frouxas e joelhos fracos tem o homem cuja mulher falhou em fazê-lo feliz. A mulher é a origem do pecado e é por causa dela que nós todos vamos morrer”.

“Não deixe que o vazamento da cisterna goteje, nem permita que uma esposa má diga do que ela gosta. Se ela não aceitar o seu controle, divorcie-se dela e mande-a embora” (Eclesiastes 25:25).

O Talmud registrava uma série de atos das esposas, pelos quais os maridos eram obrigados a se divorciar delas: “se ela comeu na rua, se ela bebeu avidamente na rua, se ela amamentou na rua, em cada caso, o Rabino Meir diz que ela deve deixar seu marido” (Git. 89a). O Talmud também torna obrigatório o divórcio de uma mulher estéril (que não gera filhos por um período de 10 anos): “Nossos rabinos ensinaram: Se um homem tomou uma esposa e viveu com ela por 10 anos e ela não gerou filhos, ele deve se divorciar dela (Yeb.64a).

As esposas, por outro lado, não podiam iniciar o divórcio de acordo com a lei judaica. A esposa judia, contudo, poderia reclamar o direito ao divórcio perante uma corte judia, desde que apresentasse uma forte razão para tal. São muito poucas coisas que uma esposa podia apresentar para pedir o divórcio: um marido com defeitos físicos ou doença de pele, um marido que não cumprisse suas responsabilidades conjugais, etc. A Corte pode ajudar na reclamação da esposa, mas não pode dissolver o casamento. Somente o marido pode fazê-lo. A corte podia açoitar, mandar prender e excomungar o marido para obrigá-lo a conceder o certificado de divórcio. Contudo, se o marido é teimoso o suficiente, ele pode se recusar a garantir o direito de divórcio à sua esposa e mantê-la amarrada a ele indefinidamente. Pior ainda, ele pode deserdá-la sem lhe garantir o divórcio e deixá-la descasada e sem estar divorciada. Ele pode se casar com outra mulher, ou mesmo morar com qualquer mulher solteira fora do lar e ter filhos desta última (estas crianças são consideradas legítimas pela lei judaica). A esposa deserdada, por outro lado, não pode se casar com ninguém, porque ela será considerada adúltera e os filhos de uma futura união são considerados ilegítimos por 10 gerações. Uma mulher em tal situação é chamada de “agunah” (mulher presa) (34).

Nos USA, hoje, há aproximadamente de 1000 a 1500 mulheres judias que são “agunot”, enquanto que em Israel o seu número pode estar acima dos 1600. Os maridos podem extorquir milhares de dólares dessas mulheres presas em troca de um divórcio de acordo com a lei judaica (35).

O Islam ocupa o meio termo entre o Cristianismo e o Judaísmo, com relação ao divórcio. O casamento no Islam é uma bênção santificada, que não deve ser quebrada, exceto por razões relevantes. Os casais são instruídos a procurar todos os remédios possíveis, sempre que seus casamentos estiverem sob ameaça. O divórcio não é para ser usual, exceto quando não há qualquer outro caminho ou solução. Resumidamente, o Islam reconhece o divórcio, contudo ele o desencoraja por todos os meios possíveis.

O Islam reconhece o direito de ambos os parceiros terminarem suas relações matrimoniais. O Islam dá ao marido o direito ao divórcio. Além disso, o Islam, diferentemente do Judaísmo, garante à esposa o direito de dissolver o casamento através do que é conhecido como “Khula” (36). Se o marido dissolve o casamento, ele não pode retirar qualquer dos presentes de casamento que ele tenha dado a ela. O Alcorão explicitamente proíbe aos maridos divorciados de terem de volta os presentes de casamento, não importando quanto eles tenham custado.

“Mas, se vos decidirdes tomar outra esposa no lugar da primeira, mesmo que vós tenhais dado à primeira o maior tesouro como dote, não o diminua em um pedaço. Tomá-lo-íeis de volta, com uma falsa imputação de erro manifesto?” (4:20).

No caso de ser a esposa a escolher o fim do casamento, ela pode devolver os presentes a seu marido. Retornar os presentes de casamento é uma compensação para o marido que gostaria de manter a esposa, enquanto que ela escolheu deixá-lo. O Alcorão instruiu os muçulmanos a não tomar de volta os presentes que eles deram às esposas, exceto no caso de a esposa escolher dissolver o casamento:

“Não é lícito para vós (homens) tomar de volta quaisquer dos presentes, exceto quando ambas as partes temerem não ser capazes de manter os limites ordenados por Alá. Não há culpa para qualquer um de vós se ela der alguma coisa por sua liberdade. Tais são os limites ordenados por Alá, assim não os transgridam” (2.229).

Certa vez uma mulher veio ao Profeta procurando a dissolução de seu casamento. Ela disse ao Profeta que não tinha qualquer queixa contra o marido, com relação ao caráter ou aos modos. Seu único problema era que ela, honestamente, não gostava dele a ponto de ser capaz de viver com ele por muito tempo. O Profeta lhe perguntou. “Você lhe daria seu quintal de volta” (o presente de casamento que ela havia recebido) e ela disse: “Sim”. O Profeta então orientou o homem a tomar de volta o seu quintal e a aceitar a dissolução de seu casamento (Bukhari).

Em alguns casos, uma esposa muçulmana pode querer manter seu casamento, mas se acha obrigada a pedir o divórcio por causa de alguns motivos relevantes, tais : crueldade do marido, deserção sem razão, um marido que não preenche suas responsabilidade conjugais, etc. Nestes casos, a corte muçulmana dissolve o casamento (37).

Em resumo, o Islam tem oferecido à mulher muçulmana alguns direitos inigualáveis: ela pode terminar o casamento através da “Khula” e  pedir o divórcio. Uma esposa muçulmana não pode nunca se tornar prisioneira de um marido recalcitrante. Foram esses direitos que seduziram as mulheres judias, que viviam nas primeiras sociedades islâmicas do séc. VII, d.C., a procurarem obter os certificados de divórcio de seus maridos judeus nas cortes muçulmanas. Os rabinos declararam aqueles certificados nulos e inválidos. A fim de terminar esta prática, os rabinos deram novos direitos e privilégios às mulheres judias, na expectativa de enfraquecer o encanto das cortes muçulmanas. Não se ofereciam às mulheres judias, que viviam nos países cristãos, qualquer privilégio semelhante onde a lei romana de divórcio, então praticada, não era mais atraente do que lei judia (38).

Agora focalizemos nossa atenção sobre como o Islam desencoraja o divórcio. O Profeta do Islam disse aos crentes que: “entre todos os atos lícitos, o divórcio é o mais odiado por Deus” (Abu Dawood). Um muçulmano não deve se divorciar de sua esposa, apenas porque ele não se simpatiza mais com ela. O Alcorão orienta o muçulmano a ser gentil com suas esposas, mesmo em caso de emoções fortes ou sentimentos de desagrado: “Vivei com elas (vossas esposas) em bases de gentileza e equidade. Se vós vos antipatizais delas pode ser que estejais antipatizando com alguma coisa que Alá colocou como um grande bem” (4:19). O Profeta Mohammad deu uma orientação semelhante: “Um crente não deve odiar uma crente. Se ele não gosta de alguma coisa, ele poderá se agradar de outras” (Muslim). O Profeta também enfatizou que os melhores muçulmanos eram aqueles que eram os melhores para as suas esposas: “Os crentes que mostram a fé mais perfeita são aqueles que têm o melhor caráter e o melhor dentre vocês é aquele que é o melhor com suas esposas” (Tirmidthi).

Contudo, o Islam é uma religião prática e reconhece que há algumas circunstâncias nas quais o casamento chega à beira do colapso.Em tais casos, o simples conselho de gentileza ou autocontrole não é a solução viável. Assim, o que fazer a fim de salvar o casamento nesses casos? O Alcorão oferece alguns conselhos práticos para os casais cujo parceiro é o injusto. Para o marido, cuja má-conduta da esposa está ameaçando o casamento, o Alcorão dá 4 tipos de conselho, como detalhado nos versos seguintes:

“… Quanto àquelas, de quem suspeitais deslealdade, admoestai-as (na primeira vez), abandonai os seus elitos (na segunda vez) e castigai-as (na terceira vez); porém, se vos obedecerem, não procureis meios contra elas. Sabei que Deus é Excelso, Magnânimo.

E se temerdes desacordo entre ambos (esposo e esposa), apelai para um árbrito da família dele e outro da dela. Se ambos desejarem se reconciliar, Deus os reconciliará, porque é Sapiente, Inteiradíssimo.”(4:34/35).

Os três primeiros devem ser tentados primeiro. Se não funcionar, então a ajuda das famílias envolvidas deve ser procurada. Deve-se notar que à luz dos versículos acima, bater numa esposa rebelde é uma medida temporária e que está colocada em terceiro lugar para os casos de extrema necessidade, na esperança de que isto possa remediar a esposa injusta. Se isto funcionar, não se permite ao marido, sob qualquer meio, de continuar a molestar. Se não funcionar, não deve usar esta medida por muito tempo e o passo final da reconciliação, assistida pela família, deve ser explorada.

O Profeta Mohammad orientou os maridos muçulmanos a não recorrerem a tais medidas, exceto em casos extremos, tais como atos lascivos cometidos pela esposa. Mesmo nestes casos, a punição deveria ser branda e, se a esposa desistisse, o marido não deveria irritá-la. “No caso de elas serem culpadas de lascívia, vós podeis deixá-las sozinhas em suas camas e infligir a eles punição branda. Se elas forem obedientes, não procurais motivos de aborrecimento contra elas.” (Tirmidthi).

Além disso, o Profeta do Islam condenou qualquer surra injustificada. Algumas esposas muçulmanas se queixaram a ele de que seus maridos lhes batiam. Ouvindo isso, o Profeta categoricamente estabeleceu: “Aqueles que fazem isso (bater nas esposas) não são os melhores dentre vós” (Abu Dawood). Deve ser lembrado também que o Profeta disse, com relação a essa questão: “Os melhores dentre vós são aqueles que são os melhores com sua família, e eu sou o melhor dentre vós para a minha família” (Tirmidthi).

O Profeta aconselhou uma muçulmana, de nome Fatimah bint Qais, a não se casar com um determinado homem porque ele era conhecido por bater em mulheres: “Eu fui ao Profeta e disse: Abul Jahm e Mu´awiah me propuseram casamento. O Profeta (a titulo de conselho) disse: Quanto a Mu´awiah, ele é muito pobre, e quanto a Abul Jahm, ele está acostumado a bater em mulheres” (Muslim).

Deve-se notar que o Talmud sanciona a surra na esposa, como castigo com fins disciplinares (39). O marido não fica restrito àqueles casos de lascívia. Ele pode bater em sua esposa, mesmo que ela se recuse a fazer seus serviços domésticos. Além disso, ele não se limita apenas àqueles casos de punição leve. Ele pode quebrar a teimosia da esposa com chibatadas ou deixando-a com fome (40).

Para a esposa, cuja a má conduta do marido é causa para o fim do casamento, o Alcorão oferece os seguinte conselho: “Se a esposa teme a crueldade ou a deserção em sua parte, não há mal que eles façam um acordo amigável entre si; e tal acordo é o melhor” (4:128). Neste caso, aconselha-se à mulher a procurar a reconciliação com seu marido (com ou sem a assistência familiar). É de se notar que o Alcorão não aconselha a esposa a valer-se da abstenção do sexo. A razão para este disparate pode ser para proteger a esposa de uma reação física violenta pelo já raivoso marido.

Tal reação física violenta será muito pior, tanto para o marido quanto para a esposa, além de prejudicar mais ainda o casamento. Alguns exegetas têm sugerido que a corte pode aplicar aquelas medidas contra o marido em nome da esposa. Quer dizer, a corte primeiro repreende o marido rebelde e, então, proíbe-o de deitar-se com ela e, finalmente, executa uma surra simbólica (4l).

Em resumo, o Islam oferece aos casais muçulmanos conselhos muito mais viáveis para salvar-lhes o casamento em caso de problemas e tensão. Se uma das partes prejudica a relação matrimonial, a outra parte é aconselhada pelo Alcorão a fazer o que for possível e efetivo para salvar esta sagrada bênção. Se todas as providências falharem, o Islam permite aos casais se separarem pacífica e cabalmente.

11. MÃES

Em muitas passagens, o Velho Testamento recomenda tratamento gentil e atencioso aos pais e condena aqueles que os desonram. Por exemplo, “Se alguém amaldiçoa seu pai ou sua mãe, ele deve morrer” (Levítico 20:9) e “Um homem sábio traz alegria para seu pai, mas um homem tolo despreza sua mãe” (Provérbios 15:20). Embora honrar o pai somente seja mencionado em alguns lugares, por exemplo, “Um homem sábio presta atenção às instruções de seu pai” (Provérbio (13:1), a mãe nunca é mencionada. Além disso, não há ênfase especial para o tratamento gentil à mãe, como um sinal de apreço pelo seu grande sofrimento pelo parto e pela amamentação. Por outro lado, as mães não herdam nada de seus filhos, como seus pais herdam (42).

É difícil falar sobre o Novo Testamento como uma escritura que se lembre de honrar a mãe. Pelo contrário, tem-se a impressão de que o Novo Testamento considera o tratamento gentil às mães como um impedimento para o caminho de Deus. De acordo com o Novo Testamento, ninguém pode tornar-se um bom cristão, digno de tornar-se um discípulo de Cristo, a menos que ele odeie sua mãe. Atribui-se a Jesus ter dito: “Se alguém vem a mim e não odeia seu pai e sua mãe, sua esposa e filhos, seus irmãos e irmãs – sim, mesmo sua própria vida – ele não pode ser meu discípulo” (Lucas 14:26).

Além disso, o Novo Testamento pinta um quadro de Jesus como indiferente, ou mesmo desrespeitoso, em relação a sua própria mãe. Por exemplo, quando ela chegou procurando por ele, enquanto ele pregava para multidão, ele não se preocupou em ir ter com ela: “Então, a mãe e os irmãos de Jesus chegaram. Em pé, do lado de fora, eles pediram a alguém para chamá-lo. Uma multidão estava sentada em volta dele e eles lhe disseram: Sua mãe e seus irmãos estão lá fora procurando-o. Quem são minha mãe e meus irmãos?, ele perguntou. Então ele olhou para aqueles que estavam sentados à volta dele e disse: Estes são minha mãe e meus irmãos! Quem quer que faça a vontade de Deus é meu irmão e irmã e mãe” (Marcos 3:3l/35)

Alguém pode argumentar que Jesus estava tentando ensinar a seus ouvintes uma importante lição de que os laços religiosos não são menos importantes do que os laços familiares. Contudo, ele podia ter ensinado aos seus ouvintes a mesma lição sem mostrar uma tal absoluta indiferença para com sua mãe. A mesma atitude desrespeitosa aparece quando ele se recusou a endossar uma declaração feita por um membro de sua audiência, abençoando o papel de sua mãe, que o havia gerado e alimentado: “Como Jesus dissesse estas coisas, uma mulher na multidão o chamou ,”abençoada seja a mãe que lhe deu à luz e o alimentou”. Ele respondeu: “Abençoados antes sejam aqueles cujos corações ouvem a palavra de Deus e obedecem” (Lucas 11:27/28);

Se uma mãe, com a estatura da virgem Maria, foi tratada com tal descortesia, conforme relatado no Novo Testamento, por um filho da estatura de Jesus Cristo, o que dizer então do tratamento dispensado pelos filhos cristãos comuns às suas mães cristãs?

No Islam, a honra, o respeito e a estima pela maternidade é sem paralelo. O Alcorão coloca a importância da gentileza para com os pais vindo em segundo lugar, após a adoração a Deus, o Poderoso:

“O teu Senhor decretou que não adoreis ninguém a não ser Ele, que sejais indulgentes com os vossos pais, mesmo que a velhice alcance a um deles ou a ambos, em vossa companhia: não os reproveis, nem os rejeiteis;outrossim, dirigi-lhes palavras honrosas. E estende sobre eles a asa da humildade e dizei: Ó Senhor meu, tenha misericórdia de ambos, como eles tiveram de mim, criando-me desde pequeno” (17:23/24).

O Alcorão em muitas outras partes dá ênfase especial para o grande papel da mãe que dá à luz e alimenta o filho:

“E recomendamos ao homem benevolência para com os seus pais. Sua mãe o suporta entre dores e sua desmama é aos dois anos. Mostre gratidão a Mim e a seus pais” (31:14)

Este lugar muito especial para as mães no Islam, foi descrito eloqüentemente pelo Profeta: “Um homem perguntou ao Profeta: “A quem deve honrar mais?” O Profeta respondeu: “Sua mãe”. “E quem vem depois?” perguntou o homem. O Profeta respondeu: “Sua mãe”. “E quem vem depois?” perguntou o homem. O Profeta respondeu: “Sua mãe”. E que vem depois?”, perguntou o homem. O profeta respondeu: “Seu pai”. (Bukhari e Muslim).

Entre os poucos preceitos do Islam, que os muçulmanos ainda observam fervorosamente até os dias atuais, é o tratamento atencioso para com as mães. A honra que as mães muçulmanas recebem de seus filhos e filhas é exemplar. As relações afetuosas entre as mães muçulmanas e seus filhos, e o profundo respeito com que os homens se aproximam de suas mães, deixa os ocidentais espantados (43).

12. A HERANÇA FEMININA

Uma das diferenças mais importantes entre o Alcorão e a Bíblia é a que se refere ao direito de herança à propriedade de parentes mortos. A postura bíblica foi sucintamente descrita pelo Rabino Epstein: “As rígidas tradições desde os tempos bíblicos não dão aos membros femininos de uma casa, esposa e filhas, o direito de sucessão ao patrimônio familiar. Nos esquemas mais primitivos de sucessão, os membros femininos da família eram considerados parte do patrimônio e tão remoto seu direito na herança quanto o de um escravo. Ao passo que na lei Mosaica, as filhas eram admitidas na sucessão, no caso de não haver homem com esse direito, embora a esposa não tivesse reconhecido esse direito, mesmo em condições semelhantes.” (44) . Por que as mulheres eram consideradas como parte do patrimônio familiar? O Rabino Epstein respondeu: “Elas são propriedades dos pais, antes do casamento; e depois, dos maridos.” (45)

As regras bíblicas de herança estão sublinhadas em Números 27:1/11. Uma esposa não tem participação no patrimônio de seu marido, enquanto que ele é seu primeiro herdeiro, mesmo antes de seus filhos. Uma filha pode herdar somente no caso de não existir herdeiros masculinos. A mãe não é herdeira, enquanto que o pai é. Viúvas e filhas, no caso de existirem meninos, ficavam por conta dos herdeiros masculinos para o seu sustento. Por isso que as viúvas e órfãs estavam entre os membros mais destituídos da sociedade judaica.

O cristianismo seguiu estes padrões por muito tempo. Tanto as leis civis como as eclesiásticas impediam as filhas de dividirem com seus irmãos o patrimônio do pai. Além disso, as viúvas eram privadas de qualquer direito à herança. Estas leis iníquas sobreviveram até o final do século passado (46).

Entre os árabes pagãos antes do Islam, os direitos de herança eram confinados exclusivamente aos parentes masculinos. O Alcorão aboliu todos esses costumes injustos e deu a todos os parentes femininos participação na herança:

“Às mulheres também corresponde uma parte do que tenham deixado os pais e parentes, quer seja pequena quer seja grande, uma quantia determinada” (4:7).

As mães muçulmanas, esposas, filhas e irmãs receberam o direito à herança 1300 anos antes de os europeus reconhecerem sequer que aqueles direitos existiam. A divisão da herança é um assunto vasto, com uma grande quantidade de detalhes (4:7,11, 12, 176). A regra geral é que a parte da mulher é a metade do que o homem recebe, exceto nos casos em que a mãe recebe parte igual a do pai. Se tomada isoladamente, esta regra geral referente a homens e mulheres pode parecer desfavorável. A fim de compreendermos a razão por detrás desta regra, devemos ter em conta o fato de que as obrigações financeiras do homem muçulmano excedem em muito às obrigações das mulheres (ver a seção “A Propriedade da Esposa”). Um noivo deve providenciar para sua noiva o presente de casamento. Este presente se torna posse exclusiva da noiva e permanece assim, mesmo que mais tarde venha a se divorciar. A noiva não tem obrigação de presentear seu noivo. Além disso, os maridos muçulmanos são onerados com a manutenção de sua esposa e filhos. A esposa, por outro lado, não é obrigada a socorrê-lo no cumprimento daquela obrigação. Sua propriedade e ganhos são para seu uso exclusivo, a não ser que ela voluntariamente os ofereça a seu marido. Além disso, todo mundo percebe que o Islam advoga veementemente a vida familiar. Ele encoraja fortemente os jovens a se casarem, desencoraja o divórcio e não vê o celibato como uma virtude. Numa verdadeira sociedade islâmica, a vida familiar é a norma e a vida de solteiro é uma exceção rara. Quer dizer, todos os homens e mulheres em idade de se casarem são casados na sociedade islâmica. À luz desses fatos, pode-se perceber que o homem muçulmano, em geral, tem uma grande responsabilidade financeira e que, por isso, as regras de herança significam uma compensação para este desequilíbrio, de forma que a sociedade possa viver livre de todas as lutas de classe ou de sexo. Após uma simples comparação entre os direitos e deveres financeiros da mulher muçulmana, uma muçulmana inglesa concluiu que o Islam tratou as mulheres não só favoravelmente, mas também  generosamente (47).

13. A CONDIÇÃO DAS VIÚVAS

O Velho Testamento não reconhecia o direito de herança a elas, e por isso as viúvas eram as mais vulneráveis entre a população judaica. Os parentes masculinos, que herdavam todo o patrimônio do marido morto, sustentavam a mulher com a administração desse patrimônio. Contudo, as viúvas não tinha meios de se assegurarem que esta provisão estava sendo cumprida e, por isso, viviam pela misericórdia dos outros. Assim, as viúvas estavam situadas entre as classes mais baixas da antiga Israel e a viuvez era considerada um símbolo de grande degradação (Isaías 54:4). Mas, a condição da viúva na tradição bíblica ia mesmo além de sua exclusão na propriedade do marido.

De acordo com o Gênesis 38,. as viúvas sem filhos deviam se casar com o irmão de seus maridos, mesmo que ele já fosse casado, pois, dessa maneira, ele podia providenciar uma descendência para o seu irmão morto e, assim, assegurar que o nome do irmão não morresse. Judá disse a Onan, “Deite-se com a esposa de seu irmão e cumpra com o seu dever para com ela como um cunhado, a fim de gerar descendência para o seu irmão”. (Gênesis 38:8).

O consentimento da viúva para este casamento não era exigido. A viúva era tratada como parte da propriedade do marido morto e sua principal função era assegurar a posteridade para o seu marido. Esta lei bíblica ainda hoje é praticada em Israel (48). Uma viúva sem filhos em Israel é legada ao irmão de seu marido. Se o irmão é muito jovem para casar, ela tem que esperar até ele atingir a idade. Se o cunhado se recusar a casar com ela, então ela fica livre para se casar com um homem de sua escolha. Não é incomum em Israel que as viúvas sejam submetidas à chantagem por parte de seus cunhados a fim de ganharem a sua liberdade.

Os árabes pagãos antes do Islam, tinham práticas semelhantes. Uma viúva era considerada uma parte da propriedade do marido a ser legada aos herdeiros masculinos e comumente ela era dada em casamento ao filho mais velho do marido falecido com outra esposa. O Alcorão sarcasticamente atacou e aboliu este costume degradante:

“Não vos caseis com as mulheres que desposaram vossos pais – exceto fato consumado no passado – porque realmente é um costume vergonhoso, odiento e abominável (4:22).

As viúvas e as mulheres divorciadas eram tão mal vistas na tradição bíblica que um sacerdote não podia se casar com uma viúva, uma divorciada ou uma prostituta: “A mulher com quem ele (sacerdote) se casar deve ser virgem. Ele não deve se casar com uma viúva, uma divorciada ou uma mulher corrompida pela prostituição, mas somente com uma virgem de seu próprio povo e assim ele não conspurcará sua descendência entre o seu povo” (Levítico 2l:13/15)

Atualmente em Israel, um descendente da casta Cohen (os sacerdotes dos dias do Templo) não pode se casar com uma divorciada, uma viúva ou uma prostituta (49). Na legislação judaica, uma mulher que enviuvou três vezes, com todos os três maridos morrendo de causa natural, é considerada “fatal” e proibida de casar de novo (50). O Alcorão, por outro lado, não reconhece castas ou pessoas fatais. Viúvas e divorciadas têm liberdade para se casarem com quem quer que seja que elas escolham. Não há estigma ligado ao divórcio ou à viuvez no Alcorão:

“Quando vos divorciardes das mulheres e elas tenham cumprido o seu período (três menstruações), tomai-as de volta eqüitativamente ou libertai-as eqüitativamente. Não as tomeis de volta com o intuito de injuriá-las injustamente, porque quem tal o fizer errará por sua própria conta. Não trateis dos sinais de Alá como zombaria” (2:23l)

“Se algum de vós vier a falecer e deixar viúvas, elas deverão aguardar quatro meses e dez dias. Quando elas tiverem cumprido seu período, não sereis responsáveis pelo que elas fizerem de suas vidas honestamente” (2.240)

14. POLIGAMIA

Passemos agora para a importante questão que é a poligamia. A poligamia é uma prática muito antiga, encontrada em muitas sociedades humanas. A Bíblia não condenou a poligamia. Pelo contrário, o Velho Testamento e os escritos rabínicos freqüentemente atestam a legalidade da poligamia. Dizem que o Rei Salomão teve 700 esposas e 300 concubinas (Reis 11:3). Também o Rei Davi teve muitas esposas e concubinas (2 Samuel 5:13). O Velho Testamento tem algumas injunções em como distribuir a propriedade de um homem entre seus filhos de diferentes mulheres (Deuteronômio 22:7). A única restrição com relação à poligamia é a proibição de tomar uma irmã da esposa como uma esposa rival (Levítico 18:18). O Talmud aconselha a um máximo de 4 esposas (51). Os judeus europeus continuaram a praticar a poligamia até o século XVI.

Os judeus orientais praticavam a poligamia regularmente até a chegada a Israel, onde ela foi proibida por lei. Contudo, na lei religiosa, que sobrepuja a lei civil em tais casos, a poligamia é permitida (52).

E com relação ao Novo Testamento? De acordo com o padre Eugene Hilman, em seu penetrante livro, a poligamia é reconsiderada, “Em parte alguma do Novo Testamento há uma orientação expressa de que o casamento deve ser monogâmico ou qualquer orientação que proíba a poligamia”. (53). Além disso, Jesus não falou contra a poligamia, embora ela fosse praticada pelos judeus de sua época. O padre Hillman chama a atenção para o fato de que a Igreja de Roma proibiu a poligamia, a fim de se adequar à cultura Greco-romana (que prescrevia somente uma esposa legal, enquanto que tolerava o concubinato e a prostituição). Ele citou Santo Agostinho, “Agora, em nosso tempo, e de acordo com o costume romano, não é mais permitido tomar uma outra esposa” (54). As igrejas africanas e os cristãos africanos muitas vezes lembram a seus irmãos europeus que a proibição da poligamia é mais uma tradição cultural do que uma autêntica injunção cristã.

O Alcorão também permitiu a poligamia, mas não sem algumas restrições: “Se vós temeis não serdes capazes de conviver justamente com os órfãos, casai com mulheres de sua escolha, 2 ou 3 ou 4 vezes; mas se temerdes que que não sereis capazes de conviver justamente com elas, então casai somente com uma” (4:13). O Alcorão, ao contrário da Bíblia, limitou o número de esposas a 4, sob a estrita condição de que as esposas sejam tratadas igualmente. Isto não deve ser entendido como uma exortação a que os crentes pratiquem a poligamia, ou que a poligamia seja considerada como um ideal. Em outras palavras, o Alcorão “tolera” ou “permite” a poligamia, e não mais, mas por que? Por que a poligamia é permitida? A resposta é simples: há lugares e épocas em que razões morais e sociais compelem para a poligamia. Como os versos do Alcorão acima indicam, a questão da poligamia no Islam não pode ser entendida como parte das obrigações da comunidade com relação aos órfãos e viúvas. O Islam, como uma religião universal, aplicável para todos os lugares e tempos, não poderia ignorar essas pressões.

Em muitas sociedades humanas, as mulheres superam os homens em quantidade. Em um país como a Guiné, há 122 mulheres para cada 100 homens. Na Tanzânia, há 95,1 homens para 100 mulheres (55). O que uma sociedade deve fazer para resolver esse desequilíbrio? Existem várias soluções, e alguns podem sugerir o celibato, outros preferem o infanticídio feminino (que ainda acontece no mundo de hoje em alguns lugares). Outros, ainda, podem achar que a única saída é a sociedade tolerar todas as formas de permissividade sexual: prostituição, sexo fora do casamento, homossexualismo, etc. Para outras sociedades, como a maior parte das sociedades africanas de hoje, a saída mais honrosa é permitir o casamento poligâmico, como uma instituição culturalmente aceita e socialmente respeitada. A questão, que é muitas vezes incompreendida no ocidente, é que muitas mulheres de outras culturas necessariamente não vêm a poligamia como um sinal de degradação da mulher. Por exemplo, muitas jovens noivas africanas, sejam cristãs ou muçulmanas, prefeririam se casar com um homem casado, que tenha provado a ele mesmo, ser um marido responsável.

. Muitas esposas africanas persuadem seus maridos a tomar uma segunda esposa e assim eles não se sentem sozinhos (56). Uma pesquisa realizada na segunda maior cidade da Nigéria com 600 mulheres, com idades entre 15 e 59 anos, mostrou que 60% dessas mulheres não se importariam que seus maridos tivessem uma outra esposa. Somente 23% expressaram raiva ante a idéia de dividirem seus maridos com outras mulheres. 76% das mulheres que se manifestaram numa pesquisa realizada no Quênia, viram a poligamia positivamente. Em outra pesquisa realizada no campo, 25 de 27 mulheres consideraram a poligamia melhor do que a monogamia.

Estas mulheres sentiram que a poligamia pode ser uma experiência feliz e benéfica se as co-esposas cooperarem umas com as outras (57). A poligamia, na maior parte das sociedades africanas é uma instituição tão respeitada, que algumas igrejas protestantes começaram a tolerá-la, “Embora a monogamia possa ser ideal para a expressão do amor entre o marido e a esposa, a igreja deve considerar que em certas culturas a poligamia é socialmente aceitável e que a crença de que a poligamia é contrária ao cristianismo não se sustenta por muito tempo”. (58) Depois de um cuidadoso estudo sobre a poligamia africana, o Reverendo David Gitari, da Igreja Anglicana, concluiu que a poligamia, como idealmente praticada, é mais cristã do que o divórcio e o novo casamento, porque há uma preocupação com as esposas e crianças abandonadas. (59) Eu pessoalmente conheço algumas esposas africanas, finamente educadas, que apesar de terem vivido no Ocidente por muitos anos, não fazem qualquer objeção à poligamia. Uma delas, que mora nos USA, solenemente estimula seu marido a tomar uma segunda esposa para ajudá-la na criação das crianças.

O problema do desequilíbrio entre os sexos começa na verdade nos problemáticos tempos de guerra. Os índios nativos americanos costumavam sofrer com essa desigualdade de número entre homens e mulheres, principalmente após as perdas dos tempos de guerra. As mulheres dessas tribos, que na verdade desfrutavam de uma alta posição, aceitavam a poligamia como a melhor proteção contra a tolerância por atividades indecentes. Os colonos europeus, sem oferecerem qualquer outra alternativa, condenavam a poligamia indiana como “incivilizada” (60).

Após a segunda guerra mundial, havia na Alemanha 7.300.000 mais mulheres do que homens (3.3 milhões delas eram viúvas). Havia 100 homens na idade de 20 a 30 anos para cada 167 mulheres naquele mesmo grupo de idade. (6l) Muitas dessas mulheres necessitavam de um homem, não apenas como uma companhia mas, também, como um mantenedor para a casa, num tempo de miséria e injustiça sem precedentes. Os soldados do exército aliado vitorioso exploravam a vulnerabilidade dessas mulheres. Muitas jovens e viúvas tinham ligações com membros das forças de ocupação. Muitos soldados americanos e britânicos pagavam por seus prazeres com cigarros, chocolates e pães. As crianças ficavam felizes com os presentes que os estrangeiros traziam. Um menino de 10 anos, vendo esses presentes com outras crianças, desejava ardentemente um “inglês” para a sua mãe e assim, ela não precisaria passar fome por tanto tempo (62). Devemos perguntar para nossa consciência sobre esta questão: O que dignifica mais uma mulher? Uma segunda esposa, aceita e respeitada, ou uma prostituta virtual, como no caso da abordagem “civilizada” das forças aliadas na Alemanha? Em outras palavras, o que dignifica mais uma mulher, a prescrição alcorâmica ou a teologia baseada na cultura do império romano?

É interessante notar que, em uma conferência da juventude internacional, acontecida em Munique, em 1948, o problema alemão do desequilíbrio no número de homens e mulheres foi discutido. Quando ficou claro que não havia solução consensual, alguns participantes sugeriram a poligamia. A reação inicial da reunião foi uma mistura de choque e repugnância. Contudo, após um estudo cuidadoso da proposta, os participantes concordaram que a poligamia era a única solução possível. Consequentemente, a poligamia estava incluída entre as recomendações finais da conferência. (63)

Atualmente, o mundo possui mais armas de destruição em massa do que jamais houve em qualquer tempo e as igrejas européias podem, mais cedo ou mais tarde, se ver obrigadas a aceitar a poligamia como o único caminho. O Padre Hillman, após muito pensar, admitiu este fato, “É quase concebível que aquelas técnicas genocidas (nuclear, biológica, química…) podem produzir um desequilíbrio tão drástico entre os sexos que o casamento plural poderia ser um meio necessário de sobrevivência… Em tal situação, os teólogos e os líderes das igrejas deveriam rapidamente produzir razões importantes e textos bíblicos que justifiquem um novo conceito de casamento”. (64)

Nos dias atuais, a poligamia continua a ser a solução viável para alguns males das sociedades modernas. As obrigações comunitárias a que o Alcorão se refere, juntamente com a permissão da poligamia, são mais perceptíveis atualmente nas sociedades ocidentais do que na África. Por exemplo, nos USA de hoje, há uma séria crise na comunidade negra. Um em cada 20 jovens rapazes negros podem morrer antes de atingir a idade de 2l anos. Para aqueles que estão entre os 20 e 35 anos, o homicídio lidera a causa da morte (65). Além disso, muitos rapazes negros estão desempregados, na prisão ou são viciados (66). Como conseqüência, um em 4 mulheres negras, na idade de 40 anos, nunca se casaram, enquanto que este número é de 1 para 10 mulheres brancas (67). Além do mais, muitas jovens negras se tornam mães solteiras antes dos 20 anos e se encontram na situação de serem mantidas. O resultado final dessas trágicas circunstâncias é que há um aumento no número de mulheres negras comprometidas com “homem-partilhado” (68). Isto é, muitas dessas infelizes mulheres negras solteiras estão envolvidas em casos com homens casados. As esposas muitas vezes não têm consciência do fato de que outras mulheres estão dividindo seus maridos com elas. Alguns observadores da crise do “homem-partilhado” na comunidade africana na América têm recomendado a poligamia consensual, como uma resposta temporária para a diminuição do número de homens negros, até que reformas mais abrangentes na sociedade americana sejam tomadas (69). Esses observadores entendem poligamia consensual como a poligamia sancionada pela comunidade e na qual todas as partes envolvidas concordem, em oposição ao segredo dos casos com homens casados, os quais sempre prejudicam tanto a esposa como a comunidade em geral.

O problema do “homem-partilhado” na comunidade africana da América foi ponto de discussão em um painel realizado na Universidade de Temple, na Filadélfia, em 27.01.93 (70). Alguns dos palestrantes recomendaram a poligamia como um remédio potencial para a crise. Eles também sugeriram que a poligamia não podia ser banida por lei, particularmente em uma sociedade que tolera a prostituição e o concubinato.. O comentário de uma das mulheres participantes, de que os negros americanos precisavam aprender com a África, onde a poligamia era praticada responsavelmente, conseguiu entusiásticos aplausos.

Philip Kilbride, um antropólogo americano, de tradição católica romana, em seu livro provocativo, “Casamento Plural para o Nosso Tempo”, propõe a poligamia como solução para alguns dos males da sociedade americana. Ele argumenta que o casamento plural pode servir como uma alternativa potencial para o divórcio em muitos casos,a fim de eliminar o impacto danoso do divórcio sobre as crianças. Ele afirma que muitos divórcios foram causados pelo excessivo número de casos extraconjugais ocorridos na sociedade americana. De acordo com Kilbride, transformar um caso extraconjugal em um casamento poligâmico, ao invés do divórcio, é melhor para as crianças. Além disso, ele sugere que outros grupos também se beneficiarão do casamento plural, tais como: mulheres mais velhas, que enfrentam uma crônica diminuição de homens e os negros americanos, que estão envolvidos com o “homem-partilhado”. (7l)

Em 1987, uma votação conduzida por um estudante de jornalismo da Universidade de Berkeley, perguntava aos estudantes se eles concordavam  que os homens poderiam ser autorizados, por lei, a terem mais de uma esposa, tendo em vista a visível diminuição do número de candidatos masculinos para o casamento na Califórnia. Quase todos os votantes aprovaram a idéia. Uma estudante chegou a declarar que o casamento poligâmico preencheria suas necessidades físicas e emocionais, porque lhe daria maior liberdade do que uma união monogâmica (72). Na verdade, o mesmo argumento foi usado por alguns poucos remanescentes das mulheres fundamentalistas Mormom, que ainda praticam a poligamia nos USA.

Elas acreditam que a poligamia é um caminho ideal para a mulher ter, tanto profissão como crianças, uma vez que as esposas se ajudam umas às outras no cuidado com os filhos.

Deve-se acrescentar que a poligamia no Islam é questão de consenso mútuo. Ninguém pode forçar a mulher a se casar com um homem casado. Além disso, a esposa tem o direito de estipular que seu marido não deve se casar com outra mulher (74). A Bíblia, pôr outro lado, algumas vezes vale-se da poligamia forçada. Uma viúva sem filhos deve se casar com o seu cunhado, mesmo que ele já seja casado (ver a seção “A condição das Viúvas”) e independente de seu consentimento (Gênesis 38:8/10).

Deve-se notar que, em muitas sociedades muçulmanas de hoje, a prática da poligamia é rara, uma vez que a diferença entre os sexos não é grande. Pode-se dizer que o número de casamentos poligâmicos no mundo muçulmano é muito menor do que o de casos extraconjugais no ocidente. Em outras palavras, os homens no mundo muçulmano são muito mais monogâmicos do que os homens no mundo ocidental.

Billy Grahan, o eminente evangélico cristão, reconheceu este fato: “O cristianismo não pode se comprometer com a questão da poligamia. Se hoje o cristianismo não pode fazer isso, é em seu próprio detrimento. O Islam permitiu a poligamia como uma solução para os males sociais e reconheceu um certo grau de latitude da natureza humana, mas, somente dentro da estrutura estritamente definida na lei.

Os países cristãos fazem um estardalhaço sobre a monogamia, mas, na verdade, eles praticam a poligamia. Ninguém ignora a existência das amantes na sociedade ocidental. A esse respeito, o Islam é fundamentalmente uma religião honesta, que permite a um muçulmano se casar uma segunda vez se ele precisa, mas proibe rigorosamente todas as associações clandestinas, a fim de salvaguardar a probidade moral da comunidade”. (75)

Releva notar que muitos países no mundo de hoje, muçulmanos ou não, proibiram a poligamia. Tomar uma segunda esposa, ainda que com o livre consentimento da primeira, é uma violação da lei. Por outro lado, trair a esposa, com ou sem o seu conhecimento e/ou consentimento, é perfeitamente legítimada. Qual é a sabedoria legal por detrás de tal contradição? A lei foi feita para premiar a decepção e punir a honestidade? Este é um dos paradoxos fantásticos de nosso mundo “civilizado”.

15. HIJAB

Finalmente, vamos esclarecer o que é considerado no ocidente como o maior símbolo de opressão e servidão da mulher, o véu, ou a cabeça coberta. É verdade que não existe algo como o véu na tradição judaico-cristã? Façamos o registro correto. De acordo com o Rabino Dr. Menachem M. Brayer (Professor de Literatura Bíblica na Universidade de Yeshiva) em seu livro, “A Mulher Judia na Literatura Rabínica”, era um costume judeu a mulher ir aos lugares públicos com a cabeça coberta, e, em alguns casos, com todo o rosto coberto, deixando apenas um olho de fora (76). Ele cita alguns famosos ditos rabinícos antigos, “Não é bom para as filhas de Israel andarem na rua com suas cabeças descobertas” e “Amaldiçoado seja o homem que permite que o cabelo de sua esposa seja visto… uma mulher que expõe seus cabelos como adorno traz a pobreza”. A lei rabínica proibe a recitação de bênçãos e orações na presença de mulheres casadas com a cabeça descoberta, uma vez que o cabelo é considerado “nudez” (77). O Dr. Brayer também menciona que “Durante o período Tannaitic a mulher judia com sua cabeça descoberta era considerada uma afronta à sua modéstia. Quando sua cabeça estava descoberta ela podia ser multada em 400 zuzim por esta ofensa”. O Dr. Brayer também explica que o véu da mulher judia nem sempre era considerado como um sinal de modéstia. Algumas vezes, o véu simbolizava mais um estado de distinção e de luxúria do que modéstia. O véu personificava a dignidade e superioridade das mulheres nobres. Também podia representar a inacessibilidade da mulher, como posse santificada de seu marido (78),

O véu significava o auto-respeito de uma mulher e um status social. As mulheres das classes mais baixas vestiam o véu para dar a impressão de uma posição mais elevada. O fato de o véu significar sinal de nobreza foi a razão de não se permitir às prostitutas cobrirem seus cabelos, na antiga sociedade judaica. Contudo, as prostitutas muitas vezes usavam um lenço especial, a fim de parecerem respeitáveis (79). As mulheres judias na Europa continuaram a usar o véu até o século XIX, quando suas vidas se tornaram interrelacionadas com o meio cultural. As pressões externas da vida européia no século XIX, obrigaram as mulheres a saírem com as cabeças descobertas. Algumas judias achavam mais conveniente substituir o tradicional véu por peruca, como uma outra forma de cobrir a cabeça. Atualmente, muitas mulheres judias pieddosas não cobrem mais suas cabeças, exceto quando se encontram nas sinagogas (80). Algumas delas, tais como as da citada Hasidic, ainda usam peruca (81).

O que dizer a respeito da tradição cristã? É sabido que as freitas católicas usaram suas cabeças cobertas por centenas de anos, mas isto não é tudo. São Paulo, no Novo Testamento, fez algumas declarações muito interessantes a respeito do véu: “Agora eu quero que vocês percebam que a cabeça de cada homem é o Cristo e a cabeça da mulher é o homem e a cabeça do Cristo é Deus. Cada homem que reza ou vaticina com a cabeça coberta desonra a sua cabeça. Cada mulher que ora ou vaticina com a cabeça descoberta desonra sua cabeça – é como se sua cabeça estivesse raspada. Se a mulher não cobrir sua cabeça, ela deve ter os seus cabelos cortados: e para não cair na desgraça de ter os cabelos cortados ou raspados ela deve cobri-los. Um homem não deve cobrir sua cabeça uma vez que ele é a imagem e glória de Deus; mas a mullher é oriunda do homem; o homem não foi criado da mulher, mas a mulher foi criada do homem. Por esta razão, e por causa dos anjos, a mulher deve ter um símbolo da autoridade sobre sua cabeça” (I Coríntios 11:3/10.

As razões apresentadas por São Paulo, para que a mulher se cubra, é que o véu significa um sinal de autoridade do homem, o qual é a imagem e glória de Deus sobre a mulher, que foi criada dele e para ele. São Tertuliano, em seu famoso tratado “Sobre o véu das virgens”, escreveu “jovens mulheres, vocês se cobrem quando nas ruas, assim, vocês devem se cobrir quando na igreja, vocês se cobrem quando estão entre pessoas estranhas, portanto vocês devem se cobrir quando estiverem entre seus irmãos…” Entre as leis canônicas da Igreja Católica de hoje, há uma lei que exige que as mulheres cubram suas cabeças quando estiverem na igreja (82). Algumas denominações cristãs, tais como os Amish e os Menonitas, por exemplo, matêm suas mulheres cobertas até hoje. A razão para o véu, conforme explicado pelos líderes da Igreja, é que “a cabeça coberta é um símbolo da sujeição feminina ao homem e a Deus”, o que, no final, significa a mesma lógica apresentada por São Paulo no Novo Testamento (83).

De todas as evidências acima, é óbvio que o Islam não inventou a cabeça coberta. Contudo, o Islam endossa a tese. O Alcorão obriga homens e mulheres a baixarem seus olhos e guardarem suas modéstias e, com relação às mulheres, determina que suas cabeças sejam cobertas, além do pescoço e seios:

“Diga às crentes que elas devem baixar seus olhos e guardar sua modéstia; que elas não devem exibir sua beleza e adornos, exceto o que comumente aparece; que elas devem puxar seus véus sobre os seios… ” (24:30/3l)

O Alcorão é bem claro no que se refere ao véu como essencial para a modéstia. Mas, por que a modéstia é importante? O Alcorão é ainda mais claro: “Ó Profeta, dize às tuas esposas e filhas, e às crentes, que elas devem se cobrir com suas mantas (quando na rua) a fim de que elas se distingam das demais e não sejam molestadas” (33:59). Esta é a questão principal, a modéstia é prescrita para proteger as mulheres de serem molestadas, isto é, a modéstia é proteção.

Assim, a única proposta do véu no Islam é a proteção. O véu islâmico, diferentemente do véu na tradição cristã, não é sinal da autoridade do homem sobre a mulher, nem é um sinal de sua sujeição ao homem. O véu islâmico, diferentemente da tradição judaica, não é um sinal de luxúria ou de distinção de algumas mulheres casadas nobres. O véu islâmico é simplesmente um sinal de modéstia, com a proposta de proteger as mulheres, todas as mulheres. A filosofia islâmica é que é sempre melhor prevenir do que remediar. Realmente, o Alcorão é tão preocupado com a proteção dos corpos das mulheres e sua reputação, que um homem que se atrever a acusar falsamente uma mulher de não ser casta, será severamente punido:

“E aqueles que difamarem as mulheres castas, sem apresentarem 4 testemunhas, infligí-lhes oitenta chibatadas e nunca mais aceiteis os seus testemunhos por que tais homens são transgressores”.

Compare-se esta posição alcorânica com a punição extremamente branda da Bíblia para os casos de estupro: Se um homem encontra uma virgem, que está na condição de casar e a estupra e eles são descobertos, ele deve pagar ao pais da moça 50 shekels de prata. Ele deve se casar com a moça por que ele a violou. Ele não poderá nunca se divorciar dela enquanto viver (Deuteronômio 22:38/30). Podemos simplesmente perguntar: Quem é punido realmente? O homem que somente pagou uma multa pelo estupro ou a moça que se viu forçada a se casar com o homem que a violentou e a ficar com ele até que ele morra? Outra questão que se apresenta é: quem proteje mais as mulheres, o Alcorão com sua postura rigorosa, ou a Bíblia com sua posição mais branda?

Algumas pessoas, sobretudo no ocidente, têm uma tendência a ridicularizar a argumentação da modéstia para proteção. Elas dizem que a melhor proteção é divulgar a educação, o comportamento civilizado e o auto-controle. E nós dizemos: ótimo, mas insuficiente. Se o processo de civilização fosse suficiente, então por que mulheres nos USA não se atrevem a andar sozinhas em ruas escuras, ou mesmo a cruzar um parque vazio? Se a Educação fosse a solução, então por que é que uma respeitada universidade como a de Queen tem um serviço de condução principalmente para as estudantes no campus? Se o auto-controle fosse a resposta, então por que tantos casos de molestamento sexual acontecem em locais de trabalho, como relatados nos jornais a cada dia? Em uma amostra sobre os molestadores, nos últimos anos, encontramos: marinheiros, diretores, professores universitários, senadores, juízes da Suprema Corte e até o Presidente dos Estdos Unidos. Eu não posso acreditar em meus olhos, quando leio sobre as seguintes estatísticas, elaboradas pelo escritório das mulheres decanas da Universidade de Queens:

* No Canadá, uma mulher é atacada sexualmente a cada seis minutos;

* Uma, em cada três mulheres no Canada, será sexualmente assaltada em alguma época de suas vidas;

* 1 em 4 mulheres corre o risco de ser estuprada alguma vez;

* 1 em 8 mulheres será atacada sexualmente enquanto estiver no colégio ou universidade; e

* Um estudo concluiu que 60% dos estudantes universitários canadenses cometeriam algum tipo de violência sexual se eles estivessem seguros de não serem descobertos.

Alguma coisa está fundamentalmente errada na sociedade em que vivemos. Uma   mudança  radical no modo de vida e na cultura da sociedade se faz absolutamente necessária. Uma cultura de modéstia é necessária, modéstia no vestir, no falar e nos modos, tanto de homens como de mulheres. Caso contrário, as terríveis estatísticas continuarão a crescer e, infelizmente, as mulheres, sozinhas, pagarão o preço. Realmente, nós todos sofremos, mas K. Gibran disse “… porque a pessoa que recebe os golpes não é como a que se  encontra  entre elas” (84). Logo, uma  sociedade como a  francesa, que expulsa uma jovem de sua escola por causa de suas roupas, acaba, no final, por, simplesmente, se ferir a si mesma.

Uma das maiores ironias de nosso mundo atual é que, o mesmo véu que é reverenciado como sinal de “santidade”, quando usado pelas freiras católicas como forma de exibir a autoridade do homem, é mostrado como forma de “opressão” quando vestido com o objetivo de protejer a mulher muçulmana.

EPÍLOGO

A questão que se apresenta àqueles não mulçumanos, que leram uma versão inicial do presente estudo é: As mulheres muçulmanas no mundo de hoje recebem este nobre tratamento tal como descrito aqui? A resposta, infelizmente, é: Não. Uma vez que a questão é inevitável em qualquer discussão referente à condição das mulheres no Islam, temos que elaborar uma resposta, a fim de fornecer aos leitores um quadro completo.

Devemos esclarecer, primeiro, que as enormes diferenças entre as sociedades muçulmanas acabam por fazer generalizações muito simplistas. Há um vasto espectro de posturas em relação à mulher no mundo muçulmano atual. Estas posturas diferem de uma sociedade para outra e dentro de sociedade individual. Contudo, podemos discernir certos traços gerais. Quase todas as sociedades muçulmanas, em maior ou menor grau, desviaram-se dos ideais do Islam, com respeito à condição das mulheres. Estes desvios, na maior parte, se direcionaram para uma ou duas direções. A primeira é mais conservadora, restritiva e orientada pelas tradições, enquanto que a segunda é mais liberal, orientada pelos costumes ocidentais.

As sociedades que se encaminharam para a primeira direção tratam as mulheres de acordo com os costumes e tradições herdados de seus ascendentes. Estas tradições, comumente, privam as mulheres de muitos direitos garantidos a elas pelo Islam. Além disso, as mulheres são tratadas de acordo com padrões diferentes daqueles aplicados aos homens. Esta discriminação penetra a vida de qualquer mulher: ela é recebida com menos alegria ao nascer do que um menino; ela é menos incentivada a ir para a escola; ela pode ser privada de qualquer participação na herança de sua família; ela está sob contínua vigilância com relação a sua modéstia, enquanto que os atos de imodéstia de seus irmãos são tolerados; ela pode até ser morta por cometer o que os membros masculinos de sua família comumente se vangloriam de praticar; ela tem pouca atuação nos assuntos familiares ou nos interesses comunitários; ela pode não ter o completo controle sobre suas posses e seus presentes de casamento; e, finalmente, como mãe, ela preferiria gerar filhos homens a fim de alcançar uma elevada posição em sua comunidade.

Por outro lado, há sociedades muçulmanas (ou certas classes dentro de algumas sociedades) que foram varridas pela cultura e modo de vida do ocidente. Estas sociedades, muitas vezes, imitam, de forma inimaginável, tudo o que receberam do ocidente e, finalmente, acabam por adotar os piores frutos da civilização ocidental. Nestas sociedades, a prioridade máxima na vida de uma típica mulher “moderna” é realçar sua beleza física. Em razão disso, seu esforço é mais para compreender sua feminilidade do que preencher sua humanidade.

Por que as sociedades muçulmanas se desviaram dos ideais do Islam? Não há uma resposta fácil. Uma explicação penetrante, das razões pelas quais muçulmanos não aderiram aos preceitos alcorânicos com relação às mulheres, está além do objetivo deste estudo. Contudo, deve ser esclarecido que as sociedades muçulmanas também se desviaram, há muito tempo, dos preceitos islâmicos concernentes a muitos aspectos de suas vidas. Há uma grande diferença entre o que os muçulmanos supõem acreditar e o que eles realmente praticam. Esta diferença não é um fenômeno recente. Tem sido assim por séculos e continuará aumentando dia após dia. Esta diferença sempre crescente tem tido consequências desastrosas sobre o mundo muçulmano e se manifestam em quase todos os aspectos da vida: tirania e fragmentação política, economia, injustiça social, falência científica, estagnação intelectual, etc. O status não islâmico das mulheres no mundo muçulmano atual é simplesmente um sintoma de doença mais profunda. Qualquer reforma no atual status das mulheres muçulmanas não terá sucesso se não for acompanhada de reformas mais amplas em todo o modo de vida das sociedades islâmicas. O mundo muçulmano está necessitando de um renascimento que o aproxime dos ideais do Islam e não que o afaste deles. Para resumir, a noção, hoje em dia, de que há um pobre status das mulheres muçulmanas se deve a uma total incompreensão. Os problemas dos muçulmanos em geral não são devidos ao fato de eles estarem muito presos ao Islam. Na verdade, eles se originam exatamente por um longo e profundo afastamento do Islam.

Deve-se também enfatizar que a proposta deste estudo comparativo não é, em qualquer hipótese, difamar o judaismo ou o cristianismo. A posição das mulheres nas tradições judaico-cristãs pode parecer retrógrada, se comparada com nossos padrões de final de século XX, contudo, deve ser encaradasdentro de seu próprio contexto histórico. Em outras palavras, qualquer avaliação da posição das mulheres na tradição judaico-cristã tem que levar em conta as circunstâncias históricas nas quais essas tradições se desenvolveram. Não pode haver dúvida de que as opiniões dos rabinos e pastores da Igreja, em relação às mulheres, foram influenciadas por posturas prevalecentes em suas respectivas sociedades. A própria Bíblia  foi escrita por diversos autores em diversas épocas. Estes autores não podiam ser imparciais aos valores e modo de vida das pessoas à volta deles. As leis do adultério no Velho Testamento, por exemplo, eram tão desfavoráveis às mulheres que elas desafiam qualquer explicação racional por parte de nossa mentalidade. Contudo, se nós considerarmos o fato de que as primeiras tribos judias eram obcecadas pela sua homogeneidade genética e extremamente desejosas de se distinguirem das outras tribos, e que somente a má conduta sexual das mulheres casadas podia ameaçar essas caras aspirações, nós podemos entender, mas não necessariamente nos simpatizarmos com elas, as razões de tal obcessão. Também, as ranzinzices dos padres da Igreja contra as mulheres devem ser encaradas dentro do    contexto da misoginia da cultura greco-romana, na qual eles viviam. Não seria correto avaliar o legado judaico-cristão, sem levar em consideração o relevante contexto histórico.

De fato, a compreensão adequada do contexto histórico também é crucial para o entendimento do significado das contribuições do Islam para a história mundial e a civilização humana. A tradição judaico-cristão foi influenciada e moldada pelo meio ambiente, condições e culturas existentes à época. No século VII, esta influência distorceu a mensagem divina revelada a Moisés e Jesus, muito além do reconhecimento. O pobre status das mulheres no mundo judaico-cristão no séc. VII é apenas um caso em questão. Em razão disso, havia uma grande necessidade de uma nova mensagem, que levasse a humanidade de volta para o camino reto. O Alcorão descreveu a missão do novo mensageiro como uma libertação para judeus e cristãos do peso que havia sobre eles:

“São aqueles que seguem o Mensageiro, o Profeta iletrado, o qual encontram mencionado em suas próprias escrituras – Tora e Evangelho – o qual lhes recomenda todo o bem e lhes veda o que é mal; ele lhes alivia de seus pesados fardos e dos grilhões que estão sobre eles” (7:157)

Portanto, o Islam não deve ser visto como uma tradição rival para o judaismo e cristianismo. Ele deve ser encarado como uma consumação, complementação e aperfeiçoamento das mensagens divinas que foram reveladas anteriormente.

Ao final desse estudo,   gostaria de  oferecer o  seguinte conselho   para a comunidade  muçulmana global. Nega-se  a muitas mulheres muçulmanas os direitos islâmicos básicos. Os erros do passado devem ser corrigidos. Fazer isto não é um favor, mas sim uma obrigação para todos os muçulmanos. A comunidade muçulmana mundial deve elaborar um quadro com as instruções do Alcorão e os ensinamentos do Profeta do Islam. Este quadro deve garantir a elas todos os direitos doados pelo Criador. Então, todos os meios necessários têm de ser desenvolvidos, a fim de assegurar a implementação adequada deste quadro, o qual se faz necessário há muito tempo. Mas, melhor tarde do que nunca. Se o mundo muçulmano não garantir os direitos islâmicos plenos a suas mães, esposas, irmãs, filhas, quem o fará?

Temos que ter a coragem de confrontar nosso passado e rejeitar completamente as tradições e costumes de nossos ascendentes, sempre que essas tradições e costumes se contraponham aos preceitos do Islam. O Alcorão não criticou severamente os árabes pagãos por seguirem cegamente as tradições de seus ancestrais? Por outro lado, temos que desenvolver uma atitude crítica em relação a tudo que recebemos do ocidente ou de qualquer outra cultura. A interação com e o aprendizado de, são experiências válidas. O Alcorão sucintamente considerou esta interação como uma das propostas da criação:

“Oh! homens, em verdade Nós vos criamos de um único casal e vos dividimos em povos e tribos, para reconhecerdes uns aos outros“ (49.13).

Pode-se dizer, contudo, que a imitação cega dos outros é um sinal certo de uma completa falta de auto-estima. Estas palavras finais são dedicadas aos leitores não muçulmanos, judeus, cristãos, ou quaisquer outros. É desorientador o fato de uma religião, que revolucionou a condição da mulher, estar sendo tachada e denegrida como sendo uma religião que reprime a mulher. Esta percepção sobre o Islam é um dos mitos mais difundidos em nosso mundo de hoje. Este mito está sendo perpetuado por uma enxurrada de livros sensacionalistas, artigos e imagens na mídia, e filmes de Hollywood. O resultado inevitável dessas incessantes imagens errôneas tem sido a incompreensão e o medo a tudo que se refere ao Islam. Este retrato negativo do Islam na mídia mundial tem que acabar se quisermos viver em um mundo livre de todos os traços de discriminação, preconceito e equívoco. Os não muçulmanos devem perceber a existência de uma imensa diferença entre a crença e a prática muçulmanas e o simples fato de que as ações dos muçulmanos não representam necessariamente o Islam. Rotular a condição da mulher no mundo muçulmano de hoje como “islâmica” está tão longe da verdade quanto rotular a posição da mulher de hoje, no ocidente, como “judaico-cristã”. Com isto em mente, muçulmanos e não muçulmanos devem começar o processo de comunicação e diálogo, a fim de remover todos os preconceitos, suspeitas e medos. Um futuro pacífico para a família humana necessita de tal diálogo.

O Islam deve ser visto como uma religião que mellhorou consideravelmente a condição da mulher e lhe garantiu muitos direitos que o mundo moderno só veio a reconhecer neste século. O Islam ainda tem muito a oferecer à mulher de hoje, dignidade, respeito e proteção em todos os aspectos e estágios de sua vida, desde o nascimento até a morte, além do reconhecimento, equilíbrio e meios para a satisfação de todas as suas necessidades espirituais, intelectuais, físicas e emocionais. Não espanta que muitos daqueles que escolhem ser muçulmanos em países como a Inglaterra sejam mulheres. Nos USA, as mulheres se convertem ao Islam, numa proporção de 4 para cada homem. O Islam tem muito a oferecer ao mundo de hoje, que está em grande necessidade de um guia e uma liderança moral. O embaixador Herman Eilts, testemunhando frente ao comitê de Negócios Estrangeiros do Congresso americano, em junho de 1985, disse que “a comunidade muçulmana de hoje está perto de um bilhão. Este é um número expressivo. Mas, para mim, é igualmente expressivo que o Islam hoje seja a religião monoteista que mais cresce no mundo. Devemos ter isto em conta. Alguma coisa está certa acerca do Islam. Ele está atraindo uma boa quantidade de pessoas”. Sim, alguma coisa está certa acerca do Islam, e está na hora de encontrá-la. Espero que este estudo seja um passo nesta direção.

Dr.Sherif AbdelAzeem Mohammed

fonte
sbmrj.org.br